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Duarte Belo: fotografia, viagem e paisagem em Portugal

Pessoa segurando caderno e câmera ao lado de mapa no chão, com vinhedos e rio ao fundo ao entardecer.

De que jeito tudo isso vira um jogo? Quais são os ganhos e os custos da liberdade criativa? Afinal, o que é a verdade?

Perguntas assim ficam expostas, como se estivessem abertas sobre a bancada de trabalho do fotógrafo Duarte Belo. Para encarar esse tipo de inquietação, basta folhear um de seus cadernos de campo: livretos pequenos, próprios para levar na estrada. Neles, o artista da casa registra textos manuscritos em várias cores, com canetas e marcadores - e também anotações que às vezes parecem responder a parte dessas dúvidas existenciais. No meio, surgem números e desenhos.

Nas paredes, os livros aguardam. Muitos livros. Ainda assim, o “centro geodésico” do lugar está no arquivo fotográfico, guardado neste apartamento em Vale Abraão, perto de Queluz. Ali estão milhões de imagens, duplicadas em outra casa do fotógrafo, em Viseu.

Se a conversa pedir um endereço, Duarte Belo hoje dirá que mora em Viseu. Mesmo vindo com frequência aos arredores de Lisboa, também poderia contar que, nas últimas quatro décadas, viveu muito tempo em deslocamento - sobretudo dentro de Portugal.

Ateliê, cadernos de campo e o arquivo de Duarte Belo

Talvez o trabalho peça amor, como repetia uma das avós de Duarte. A avó Olívia, pasteleira, era também uma excelente “ouvidora” de receitas em Vila do Conde, em outros tempos. Duarte, nascido em 1968, é um dos três filhos de Teresa Belo e do poeta Ruy Belo. Começou a fotografar aos 14 anos, formou-se em Arquitetura e foi construindo uma obra fotográfica exibida em mostras - como a que está agora na antiga escola primária da aldeia de Picote, perto de Miranda do Douro.

A fotografia de Duarte Belo também circula em dezenas de livros publicados em parceria com autores como José Mattoso, Suzanne Daveau, Fernando Alves, João Abreu ou Álvaro Domingues. Ou ainda com António Araújo, com quem o fotógrafo-andarilho lançou agora o novo livro “Portugal Refractário”.

Ao percorrer o país, ele o faz com olhar minucioso, com humor e com uma ternura evidente pela paisagem. Gosta de armar a barraca ao cair da tarde, para reduzir a chance de ser notado. Sente-se à vontade fotografando um país quase sem figuras humanas. E, embora encare com pessimismo o futuro climático, sobre a Humanidade ele diz considerá-la a criação mais extraordinária da vida na Terra.

Acaba de ser nomeado ministro da Paisagem, quais são as suas primeiras medidas?

A primeira medida seria lançar uma campanha ampla de divulgação e educação, para elevar muito a alfabetização em paisagem. Eu buscaria modos concretos de agir, de comunicar e de incentivar, para tentar frear essa degradação contínua que vemos diariamente na paisagem portuguesa - em todas as escalas, tanto urbana quanto natural. Natural, entre aspas. Em Portugal, quase não existe espaço natural, isto é, anterior à presença humana. No chamado mundo rural, faltam pessoas. Vem daí uma sequência de problemas encadeados, bem difícil de resolver.

Que memórias mais antigas tem do professor Álvaro Duarte Almeida?

Guardo lembranças muito fortes do professor Duarte Almeida; foi uma das pessoas mais determinantes na minha vida. Volto aos primeiros dias de aula do meu 12º ano, em 1985. Ele me deu Geometria Descritiva na Escola Secundária D. Pedro V, em Lisboa. Era um professor fora de série e tinha a particularidade de levar os alunos a trabalhos de campo. Uma vez, fomos fazer uma campanha arqueológica em antas entre Mora e Pavia. Isso marcava profundamente os estudantes que participavam. As campanhas eram, basicamente, limpar os dólmens e fazer o levantamento topográfico.

Faziam também caminhadas nas férias?

Nas férias, fazíamos caminhadas longas - às vezes quase um mês andando pelas serras do Norte. Fizemos a Peneda-Gerês e também a serra da Estrela. Enfim, uma série de caminhadas com mais ou menos alunos, organizadas por ele. E também aqui perto: serra da Arrábida, serra de Sintra.

“Não há uma Terra Prometida, não há um fim, nunca vamos parar”, escreveu no livro “Terra Mineral - Terra Vegetal”, feito com João Abreu. “Há sempre um horizonte desconhecido que nos interpela”.

É isso. A nossa cultura judaico-cristã nos legou o mito do Paraíso, da Terra Prometida. Só que, quando a gente se aproxima de um lugar, ele parece sempre recuar. De um lado, nunca ficamos plenamente satisfeitos com o que encontramos; vamos querer sempre mais. De outro, tudo está em transformação constante - nós e os lugares.

“O olho é uma máquina, uma criação da natureza, absolutamente invulgar. A fotografia é um prolongamento da utilidade sobrevivente da visão”

Estamos sempre a despedirmo-nos?

Eu não chamaria de despedida. Talvez a nossa relação com a memória e com aquilo que se perde seja mais complicada. Eu evitaria esse termo, embora existam muitas situações irreversíveis - eu diria que quase todas. Mas isso se relaciona com a própria natureza do processo biológico: nada se repete, tudo se altera o tempo todo. A gente tem dificuldade de aceitar essa condição e se agarra a modelos fixos. E isso depois atrapalha a vida e a compreensão do real.

Início na fotografia, família e o olhar sobre pessoas

Vila do Conde, 1982. Aos 14 anos, começou a usar a câmara fotográfica da sua mãe, Teresa Belo.

Era uma Voigtländer; aquela câmera me seduzia demais. Minha mãe tinha umas luzes de fotografia. Já não a usava muito naquela época, mas foi com ela que nos fotografou - a mim e aos meus irmãos, Diogo e Catarina. E ao meu pai. A maior parte das fotos que existem do meu pai foi feita pela minha mãe. Com essa câmera.

O seu pai, o poeta Ruy Belo.

Sim, o poeta Ruy Belo... Fui para a orla do mar, em Vila do Conde, comecei a fotografar e, dali em diante, nunca mais parei. Minha mãe sempre me apoiou muito nisso. Naquele tempo, não existia fotografia digital; era tudo analógico. No primeiro ano, fiz um rolo entre o Natal e o Ano-Novo, quando ia passar férias em Vila do Conde, na casa dos meus avós.

A preto e branco?

O primeiro foi colorido. As imagens saíam meio tremidas, porque eu tinha aquela preocupação com a profundidade de campo e queria aproveitar. Eu tinha lido algumas coisas. O mundo era outro. Havia dois ou três livros de técnica disponíveis no mercado e pouco mais do que isso. Então eu usava velocidades de obturação baixas para tentar deixar tudo em foco. E acabava tremendo.

O seu pai morreu quando o Duarte tinha 10 anos. Quando é que começou a pegar nos livros de poesia dele?

Eu até já pegava antes, mas entendia metade do que lia. Depois, na adolescência, talvez com 13 ou 14 anos, foi quando comecei de fato.

Coincide com o seu início na fotografia.

Sim. E lamento não ter começado antes, para ter registrado meu pai, a casa dos meus avós em Vila do Conde… Uma porção de coisas que, pouco tempo depois, foram se perdendo. Tenho um arquivo enorme e volto a ele com bastante frequência. Em muitos trabalhos, incluo fotografias de arquivo e acabo vivendo constantemente esse tempo passado. Isso é muito interessante - e eu sinto falta de ter materiais mais antigos, de quando eu ainda não fotografava e não tinha esse recurso.

Chegou a despedir-se do Doce de Santa Clara, em Vila do Conde?

Despedi-me depois, a posteriori. Em certo momento, surgiu a chance de fazer um livro com apoio da Câmara Municipal de Vila do Conde. Só que a pastelaria já tinha sido transferida para outros proprietários.

Já não era dos seus avós.

A casa nós mantínhamos, mas a pastelaria já estava nas mãos de outras pessoas. Eu quis fazer uma espécie de livro de culinária, como homenagem a eles. O que fiz foi fotografar os utensílios de cozinha que eu tinha guardado, quando a casa foi desmontada. É um livro de receitas da minha avó, recolhidas oralmente ali pelas redondezas. Muitas vinham do antigo Convento de Santa Clara. Por isso a pastelaria tinha o nome Doce de Santa Clara. Em vez de fotografar os doces que ela fazia, fotografei as ferramentas. Os utensílios são peças maravilhosas, com a marca do tempo e das mãos. Ainda não existia ASAE.

É uma arqueologia da ternura da sua avó.

Sim, também. Minha avó era uma pessoa extraordinária. Eu tenho essas duas mulheres - minha mãe e minha avó. Elas marcaram profundamente toda a minha personalidade.

Como se chamava essa avó?

Olívia da Conceição Carriço. E meu avô, Joaquim.

“O trabalho quer amor”?

Essa é uma das máximas que sigo repetindo em palestras e conversas. Minha avó dizia que o trabalho queria amor. E eu continuo achando que sim. É um ato de amor e acolhimento, de partilha.

Chegou a ter amor pela arquitetura?

Tive - e ainda tenho - amor pela arquitetura. Gosto demais de arquitetura e entendo minha fotografia como uma extensão do fazer arquitetônico. Eu já queria seguir fotografia quando comecei a estudar arquitetura, mas havia a ideia de que seria difícil garantir sustento com fotografia. Então fiz arquitetura; eu já gostava muito da área na época. Trabalhei como arquiteto por um tempo, mas, quando pude, larguei a arquitetura como projeto, como desenho, e me dediquei apenas à fotografia. Daí eu trabalhar tanto o registro do espaço português - a paisagem e a arquitetura. É um jeito de continuar fazendo arquitetura, mas com fotografia.

Tem mais de dois milhões de imagens?

Dois milhões e meio.

Gosta muito de números?

Gosto.

A percentagem de pessoas nas suas imagens é muito pequena.

Sim, é bem pequena. Família: fotografei muito os meus filhos. Agora já cresceram e já não gostam de ser fotografados. Mas tenho muitas, muitas fotografias. O mais velho, o Pedro, já tem 30 anos. Ele ainda pegou a fase analógica e tem menos fotos; era mais contido. Do Afonso, que tem agora 18 anos, tenho muitas. Tenho milhares de fotos dos dois e de gente próxima. Se eu caminho com amigos, fotografo bem mais os amigos do que a paisagem. Mas, no geral, eu ando sozinho e fotografo só os lugares, a paisagem e a arquitetura. A porcentagem não chega a 1%, com certeza. De dois anos para cá até hoje, fotografei as 160 cidades portuguesas. E aí aparecem bastante pessoas nas ruas.

Aparecem a contragosto?

Não, eu gosto. Mas está cada vez mais difícil fotografar alguém contra a vontade da pessoa. Já aconteceu várias vezes de eu ter problemas, discussões. Porque as pessoas acham que fotografei algo que é delas: um prédio, uma fachada, qualquer coisa. Ou então, se se sentem fotografadas, fazem cara feia e às vezes reclamam. É raro, mas acontece. Por isso também evito fotografar gente. Só em ambiente urbano, com alguma distância, porque senão sei que posso ter transtorno. No meio rural, se for uma pessoa só na imagem, chama atenção demais. Quem olha para a fotografia repara muito mais na pessoa do que no resto em volta. Por isso, evito fotografar pessoas. Mas elas estão em tudo o que eu fotografo, porque tudo traz marcas do povoamento humano: de sinais muito sutis ligados à agricultura até as cidades, onde não se vê outra coisa além de gestos humanos. Não tenho nenhuma relação ruim com as pessoas; mas existe outra questão. Quando há pessoas, é preciso negociar - entre aspas - essa autorização. É preciso esperar que a pessoa se afaste ou vire de costas. Ou que, na troca de olhares, dê o assentimento. Quando estou sozinho, tudo corre. Costumo até descrever meu trabalho como um movimento performativo sobre a paisagem, que deixa um rastro de imagens. Não deixa mais do que isso. Com pessoas, eu preciso pensar, negociar… Entra uma entropia no sistema. Sem pessoas, é liberdade total. Para mim, isso é uma alegria enorme.

Como foi fotografar a casa de Mário Cesariny, com ele lá dentro?

Foi uma experiência riquíssima. Ele autorizou e inclusive pediu que eu o fotografasse sentado na cama, com um chapéu na cabeça. E me deu liberdade total. A questão das casas… Já me alertaram se isso não seria uma invasão da vida privada das pessoas. Em certa medida, é. Também fotografei a casa do Orlando Ribeiro e, na época, a Suzanne Daveau - a viúva - me disse que ficou muito apreensiva. Mas eu sempre mostro todas as fotografias antes de publicar. E a pessoa me dá consentimento para divulgar. Se não autorizar alguma, eu separo e fica só no arquivo. No caso do Mário Cesariny, fui lá dois dias seguidos, em 2003. Ele estava pelos 80 anos e, no segundo dia, tinha mudado muita coisa. Ele vivia numa casa com a irmã. Trabalhava num quarto onde também dormia. E no segundo dia havia um monte de itens diferentes, porque ele trabalhava freneticamente nas peças. A gente acaba penetrando no mundo das pessoas, numa intimidade - em certo sentido - muito interessante. É o desvelar do processo criativo.

Começou a fotografar há mais de 40 anos. E uma das coisas que mudou muito no mundo foi a nossa relação com a imagem. Toda a gente fotografa.

Sim, todo mundo fotografa. Para mim, essa relação não mudou tanto. Eu fotografo muito mais com o digital. Para choque de vários colegas fotógrafos, já fiz mais de cinco mil fotografias num dia de campo. E foi este ano. Eu abracei o digital. Mudei logo e passei a produzir muito mais imagens, porque, embora o investimento inicial em equipamento fosse mais alto, depois o processo fica muito mais barato. O que eu gosto na fotografia digital é poder fotografar quase sem limite. É aquela ideia de movimento: a pessoa registra tudo. Depois vem uma seleção mais demorada. Mas, na relação com o visível, é muito mais intuitivo.

Sobre o fato de se fotografar cada vez mais, chego a uma conclusão curiosa. Eu me interesso por fotografias do país. E existem sites ou fotógrafos que às vezes trabalham temas parecidos com os meus; eu vou ver e noto uma repetição de lugares. Parece que as pessoas vão sempre aos mesmos pontos, fotografam os mesmos ângulos, sempre do mesmo jeito. E isso não mudou do analógico para o digital. Há mais fotos, mas a variação temática segue relativamente baixa.

E tem outra questão: pouca gente se preocupa em arquivar direito. Depois vai sobrar pouco, porque o celular some, as pessoas não guardam os arquivos, não guardam na nuvem. Enfim, a gente vive num mar de imagens. Mas isso não me incomoda especialmente, nem tenho uma crítica particular a fazer. A fotografia tem uma ligação muito direta com a visão, com essa construção biológica. O olho é uma máquina. Eu gosto muito de biologia. E o olho é uma criação da natureza, absolutamente invulgar. A fotografia, de certo modo, é um prolongamento da utilidade sobrevivente da visão.

Movimento, continuidade e viagem são três das 144 palavras do seu atlas de palavras.

144 é 12x12. É um jeito de organizar, de fixar. Eu gosto de quadrados perfeitos.

Viagens, caminhadas e a liberdade do percurso

É sobretudo um viajante?

Eu viajo principalmente por Portugal. Também saio, mas bem menos do que aquilo que faço no nosso país. Por vários motivos: proximidade, língua, custo. Nunca tive muitos recursos para viajar sem limitações. Uma coisa que aprendi com o Álvaro Duarte Almeida é que, com muito pouco, dá para fazer viagens extraordinárias de mochila. Uma vez, calculei isso num livro que fiz com o Museu da Paisagem, o “Caminhar Oblíquo”. Fui de Penedo Durão, em Freixo de Espada à Cinta, até o Cabo da Roca: 530 km, 15 dias.

“Já me chamaram a atenção se [fotografar casas] não é uma devassa da vida privada. Em certa medida, é. Fotografei a casa do Orlando Ribeiro e a viúva ficou apreensiva”

Foi uma peregrinação?

Peregrinação, não. Eu sou completamente ateu. Pelo menos no sentido religioso, não foi. Foi uma prova dura e muito rica, sob vários pontos de vista. Mas eu fiz as contas e gastei o equivalente a 2,60 euros por dia. Esses 15 dias de férias me custaram 40 euros, dormindo em lugares incríveis.

E a ter encontros com caçadores, cães-pastores e enxames de abelhas?

Também, às vezes. Uma vez eu levei um susto com abelhas, há muitos anos. Eu estava nas margens do Douro; tinha ido de Barca d’Alva até Miranda do Douro. Eu tinha 19 anos, era quando terminei o meu 1º ano [de Arquitetura]. Eu estudava no Porto e estava fascinado com as fotografias do Domingos Alvão. Peguei o trem até Barca d’Alva - hoje ele só vai até o Pocinho - e fui a pé de Barca d’Alva até Miranda, em cinco dias. Eu estava pesadíssimo, com mochila, enfim...

Com fotografia analógica e muitos enlatados?

Com fotografia analógica, sim. Enlatados eu não levava; era uma das coisas que eu tinha aprendido com o Álvaro Duarte Almeida. Eu levava mais pão, torradas e coisas desse tipo. Eu nunca jogo lixo pelos lugares onde ando. Se eu levasse latas, teria de carregá-las até despejar numa lixeira. Mas eu estava numa espécie de cascalheira e uma nuvem negra passou por cima de mim, com um barulho quase ensurdecedor. Era um enxame de abelhas se deslocando de um lugar para outro. Entendi o que era mais tarde; foi uma experiência que nunca mais voltei a sentir. Eu já dormi perto de colmeias, mas ser sobrevoado por um enxame... Eu estava descalço, esfriando os pés longe da água. Depois eu soube que elas não param quando estão em movimento. Não atacam; ficam focadas naquele deslocamento. Em princípio, não haveria perigo.

Uma grande parte do seu trabalho implica solidão.

Sim - e eu gosto especialmente disso. Para viajar, eu gosto muito de ir sozinho, porque sou completamente livre. Eu não sou muito disciplinado e, às vezes, tenho um roteiro e não sigo à risca. Essas caminhadas são duras. Seja por falta de água, seja por trechos em que eu ando mais do que tinha estimado. A dureza é grande. E, se eu estiver com outras pessoas, eu me incomodo em submetê-las a isso. Muitas vezes elas não têm preparo nem motivação para certo nível de dificuldade. Por isso, na maior parte das vezes eu caminho sozinho. E existe a liberdade de ir para onde eu quiser, a qualquer hora. Sem amarras, sem negociar. Também gosto de viajar acompanhado, mas aí tem outro caráter. Nessas ocasiões, eu fotografo muito menos.

Há algum sítio onde tenha voltado sempre, ao longo destas décadas?

Vila do Conde e a Consolação, que são praias da minha infância e me ligam aos meus pais. Eu volto com alguma regularidade e fotografo quase sempre que vou. E existem lugares que considero muito especiais, mas sem a disciplina de visitas regulares: a região de Foz Côa, das gravuras; o planalto de Miranda; a Peneda-Gerês; a serra da Estrela. Eu gosto de ambientes de baixa densidade, mas gosto de cidades também. Eu tive um prazer enorme agora fotografando cidades, quando fotografei as 160 cidades. Eu terminei há 15 dias, nos Açores.

Acabou onde?

No Faial, na cidade da Horta. Eu tinha estado lá em 2007, fotografando o vulcão dos Capelinhos, quando foi o cinquentenário da erupção de 1957. Eu voltei agora aos Capelinhos, ainda tinha algum tempo. Eu gosto de retornar aos lugares, ver como tudo muda e registrar, em boa medida, essa transformação.

A obra de Orlando Ribeiro marcou-o?

Sim. Em 1986 eu fui estudar no Porto, no primeiro ano de Arquitetura. Eu tinha conhecido no ano anterior o professor Álvaro Duarte Almeida, com quem tinha feito caminhadas. Eu tinha muita curiosidade de conhecer Portugal. E naquela época não existia internet como existe hoje.

Tinha mapas em papel?

Meu primeiro mapa foi um da Michelin, cobrindo o país inteiro. Depois eu tinha as cartas militares, compradas no Porto, na Porto Editora. Era preciso assinar um termo de responsabilidade, dizendo que não passaríamos a carta a ninguém nem a reproduziríamos. Aquilo ainda tinha um caráter militar, associado ao conhecimento do território. Eu fui à livraria Leitura - que infelizmente já não existe - atrás de livros sobre Portugal. Um dos primeiros que encontrei foi “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”, do Orlando Ribeiro. Eu comprei à tarde e, na manhã seguinte, já tinha lido. Eu li naquela noite e fiquei deslumbrado.

Foi uma epifania?

Sim, foi extremamente motivador para eu ir fotografar. Depois eu cheguei a conhecê-lo, já no fim da vida. E até hoje mantenho contato com a Suzanne Daveau e com alguns elementos da família, como o neto, João Ribeiro.

“Desde então não paraste de contribuir para um outro estudo do pastoreio. Peregrino de um chão movente”. São palavras escritas por Fernando Alves sobre essa epifania, no vosso livro “Onde Vais, por Esse Trilho, com o Canto da Toutinegra?”.

Eu tenho uma admiração enorme pelo Fernando Alves. Ele conhece Portugal tão bem ou melhor do que eu. E tem uma dimensão humana de contato com as pessoas que eu não tenho. Quase sempre, quando ando sozinho, eu tenho poucos contatos - a não ser com quem cruza meu caminho. E muitas vezes eu durmo no campo, então também não tenho aqueles rituais de parar no café.

O Fernando Alves pára nas tabernas e conversa com toda a gente.

Isso é uma riqueza extraordinária. Eu ouço o Fernando Alves desde a fundação da TSF; minha mãe já era ouvinte. Eu o admiro demais; é um pouco como o Orlando Ribeiro. É um grande português, no sentido de divulgar tudo o que temos de bom no nosso país. É um grande jornalista e tem uma voz encantatória.

No livro “Toutinegra”, há um diálogo entre as suas fotografias e os textos de Fernando Alves, com uma distância de 30 anos.

Quantos livros já fez?

Eu não faço essa contabilidade. Tenho feito bastante coisa recentemente com o Museu da Paisagem. Com o João Abreu, que é outra pessoa extraordinária nesse processo. Ele também foi aluno do Álvaro Duarte Almeida, e foi ali que a gente se conheceu. Ele é um pouco mais novo e tem feito um trabalho notável no Museu da Paisagem. Ele criou esse conceito.

Livros… Se eu contar os vários volumes de “Portugal - O Sabor da Terra”, com José Mattoso e Suzanne Daveau, foram 14 volumes. Cada um é autônomo, mas depois tudo foi reeditado em 2010 num único volume. No total, são mais de 50 livros, com certeza. Só no Museu da Paisagem são uns 14. Já é muita coisa. Eu gosto - e talvez tenha herdado isso do meu pai. Eu cresci numa casa revestida de livros. Meu pai escrevia livros. Minha mãe também fez alguns, ligados ao ensino e à pedagogia. Eu gosto muito do formato livro e segui, então, o modelo de casa.

“Há tendência para viagens fora de portas. Nunca senti essa necessidade. Viajo há 40 anos por Portugal e estou sempre a encontrar coisas novas”

“Fazeres de Unidade para a Génese de Um Atlas: FUGA”. Há um lado de fuga no seu trabalho?

Acho que sim: eu estou sempre fugindo de alguma coisa. Não é fuga de criminoso, mas fuga de certos estereótipos da nossa sociedade. É uma busca por liberdade. Fugir para a liberdade. Me desprender de lugares-comuns, de modas, de coisas com as quais não me reconheço. Eu tento desenhar meu caminho com o mapa do meu percurso sempre aberto.

Esse também foi o nome de uma exposição minha, em 2019, no antigo Mercado de Xabregas, onde hoje funciona a escola Ar.Co. Eu revesti duas paredes, cada uma com 20 metros, com folhas A4. Eram 12 mil e tantas fotografias, algo muito exaustivo. Havia um percurso. Não era uma mostra biográfica, mas estava bem centrada nas minhas metodologias e em trabalhos do passado. Cada trabalho que vou fazendo é como uma célula de um corpo maior em que eu trabalho continuamente: uma síntese de tudo isso que eu gostaria de expor em breve. Quero ver se consigo mostrar; é muita coisa e exige espaço. Mas a fuga me seduz como movimento em direção à liberdade.

Fora da sociedade consumista em que vivemos.

Sim, embora eu colha benefícios de viver na sociedade em que vivemos. É um privilégio viver na Europa, neste tempo atual. Mas há muitos aspectos da sociedade consumista com os quais eu não me identifico nem um pouco.

Em Portugal e em outros países, existe essa tendência de achar que viajar tem de ser “fora de portas”: exterior, avião, vistos… Eu nunca senti essa necessidade. Se uma pessoa viajar 20 anos em Portugal, sempre encontra coisas novas. Eu viajo há 40 anos e continuo encontrando coisas novas. E faço isso com prazer, com surpresa, com espanto, cada vez que saio.

É importante conhecer o mundo, outras realidades, outras culturas muito diferentes. Mas o pedaço é de uma riqueza extraordinária. Fernando Pessoa dizia, no “Livro do Desassossego”, que, no quarto dele, podia viajar pelo mundo inteiro. Eu gosto de viver cercado de livros: também são um jeito de viajar. Eles nos levam a lugares que nem imaginamos.

Paisagem portuguesa, humor e o futuro do planeta

A degradação da paisagem que tem havido ao longo destas décadas transporta-o para algum tipo de pessimismo?

Eu sou otimista por natureza, em relação a mim e ao meu círculo. Mas sou bem pessimista quanto ao destino do planeta - e não só do país e das paisagens próximas. Isso está seguindo um caminho com uma voragem enorme… As mudanças climáticas podem trazer uma catástrofe planetária, sobretudo para a nossa própria espécie. E, nisso, eu sou bastante pessimista, porque não há como parar esse processo.

No fundo, a pobreza é a maior condição de sustentabilidade. A partir do momento em que as pessoas têm recursos para consumir cada vez mais, há cada vez mais desperdício. Viajam cada vez mais, poluem cada vez mais. E, se todo mundo fizer isso, o destino está traçado.

Depois, existem aspectos ligados à tecnologia, às engenharias, que acham que vai dar para contornar. Mas eu sou fã da segunda lei da termodinâmica, da lei da entropia. É uma lei do séc. XIX que diz que os sistemas aumentam de complexidade ao longo do tempo. E que a aproximação ao caos é irreversível. A última extinção em massa no planeta foi a dos dinossauros, há cerca de 65 milhões de anos. Eles se extinguiram, a vida ficou bem depauperada. Os dinossauros dominavam; eram os grandes senhores. Eram aquilo que somos nós agora. Eles desapareceram e a vida, milhões de anos depois, floresceu com uma vivacidade muito superior ao que era naquela época. Neste momento, estamos no limiar. Há quem diga que já estamos na sexta grande extinção, provocada por nós mesmos.

O Antropoceno.

O Antropoceno. Mas a diversidade de espécies é mais numerosa do que alguma vez foi na História da vida na Terra. E isso tem a ver com esse aumento progressivo de complexidade, havendo energia e condições. É o que acontece no planeta. Temos os seis elementos químicos fundamentais à vida, uma distância certa de uma fonte de energia, água no estado líquido, carbono em abundância… E isso fez com que, de organismos unicelulares até nós, a coisa fosse evoluindo num processo não linear, com grandes altos e baixos, e as grandes extinções que causaram danos muito consideráveis.

Chegamos a este ponto e somos nós o agente geológico - daí o termo Antropoceno, que é uma nomenclatura da geologia. Somos nós que estamos provocando, provavelmente, mais uma grande extinção, que pode nos eliminar. Ainda assim, eu acho que a vida na Terra não vai acabar. Ela é quase indestrutível, considerando a distância que temos.

Mas atenção: a Humanidade é a mais extraordinária criação da vida na Terra. Quando nós chegamos, a arte, a música, a ciência, enfim, tudo o que criamos… A própria religião, como fenômeno de lidar com o desconhecido… Talvez isso seja inevitável, mas é triste que a História humana esteja seguindo esse rumo.

É absolutamente fabuloso - extraordinário - como, a partir de organismos unicelulares, surgem criaturas como nós, capazes do que somos capazes. Eu admiro muito a investigação aeroespacial. A viagem da Artémis II à Lua foi uma coisa linda. Ver a Terra de longe foi maravilhoso. Um dos dispositivos mais extraordinários para a minha relação com a fotografia é o telescópio James Webb. Existia o Hubble, que fez uma coleta de imagens extraordinária, mas orbitava ao redor da Terra. E isso trazia limitações para ver mais longe. O James Webb orbita ao redor do Sol e tem mostrado imagens quase da origem do Universo, fabulosas. Como é que uma espécie consegue espiar a origem do Universo? Para mim, é algo sem palavras.

A uma escala mais próxima, o seu trabalho também tem um lado de humor. Como no livro “Paisagem Portuguesa”, que fez com Álvaro Domingues.

Sim, trabalhar com o Álvaro Domingues também puxa esse lado do humor. Nesse livro, eu me preocupei em mostrar toda a geografia de Portugal: os grandes rios, as serras, os elementos estruturais da paisagem. E também todo o tempo do povoamento humano. Depois foi pegar esses conceitos e buscar situações paradigmáticas pelo país. E, em cada fotografia, falar de realidades diferentes.

Essa ideia de pureza - extremamente prejudicial em quase todos os conceitos, com exceção da química… - não existe. Quando a gente olha para uma paisagem, ela quase sempre é feita de camadas: natureza, geologia, fazeres humanos associados. E há humor no que vemos. Isso deixa tudo mais divertido, mais atraente, mais irônico. É preciso alguma boa disposição para olhar para as coisas.

Também há humor no livro “Portugal Refractário”.

Tem humor, sim. É o mais recente, com António Araújo, também com o Museu da Paisagem. Existem situações, mas eu nem as busco de propósito. Como eu fotografo muito, há momentos em que eu nem percebo o humor que está ali. Ou mesmo certos aspectos ridículos, tamanha é a diversidade de linguagens que encontramos no universo visível. Esse livro tem coisas que fazem a gente rir. Às vezes com alguma tristeza.

“A última extinção em massa foi a dos dinossauros, que eram aquilo que somos agora. Milhões de anos depois, a vida floresceu com vivacidade muito superior”

Porque é um humor negro.

Há humor negro também. Muitas coisas são descuidadas, e isso tem relação com a tal iliteracia espacial. As pessoas são descuidadas e exibem coisas que talvez devessem manter na privacidade, dentro de casa.

O seu lado de fazedor de puzzles tem a ver com essa procura da organização?

Essa pergunta é curiosa. Os puzzles que eu monto são quase todos de cartografia e cartografia antiga. E, invertendo um pouco a lógica, eu vejo meu trabalho como uma construção permanente de um puzzle. Eu gostaria de um dia expor todas as fotografias - os 2,5 milhões - numa superfície, e ver que imagem isso devolveria sobre a realidade.

Os puzzles vêm numa caixa, com as peças separadas. E cada peça de um puzzle de cartografia corresponde a um pedaço de terra ou de mar. Quase sempre são representações do planeta; e é curioso como cada peça é um mundo. Do mesmo modo, num conjunto de fotografias, cada imagem representa um pedaço do real e conta histórias.

No puzzle, a gente vai construindo. E eu gosto de uma lógica. O maior que eu montei tinha 9 mil peças. Um puzzle de 9 mil peças não se faz com as peças espalhadas numa mesa, procurando uma a uma. É preciso uma visão estruturada: buscar as da borda primeiro. Depois, separar elementos estruturais. A gente varre várias vezes os conjuntos e separa por montes. Existem princípios para terminar em tempo útil. Senão a gente enlouquece e não chega ao fim.

Tem a ver com um treino da perseverança?

Também, mas a fotografia é muito assim: é o não desistir. Perseverança, para mim, é sempre uma faca de dois gumes. Porque também é saber o limite de parar. A partir do qual - desculpe o termo - é burrice insistir. Se a gente teima numa tarefa estéril demais, não vai a lugar nenhum. E o puzzle tem esse lado de resistência, de fazer aos poucos, procurando paulatinamente.

Mas tem outro aspecto: para mim, é libertador em termos de pensamento. Eu já montei 53 ou 54 puzzles, todos de cartografia. Eu já expus alguns na Biblioteca Nacional uma vez, numa exposição que fiz com João Abreu: “Terra Mineral - Terra Vegetal”. E eu gostaria de um dia expor todos os puzzles.

Aquela visão de conjunto traz interpretações diferentes do planeta Terra. Alguns são só do território português, mas isso se liga à ideia de conhecer a Terra e a um certo paralelo com a fotografia. São representações. A cartografia, tal como a fotografia do modo como eu a uso no mapeamento do espaço português, é uma representação da Terra. E a fotografia também é. Uma é quase uma projeção horizontal; a fotografia é mais uma projeção vertical. Claro que as fotografias não se montam como um puzzle, mas existe um paralelo muito interessante nesse diálogo entre mapas e fotografias.

“A fotografia é um instrumento de trabalho como um par de botas, que ajuda a percorrer a paisagem.” São palavras suas.

Sim: como um par de botas. Eu entendo a fotografia como algo muito além de um objeto para pendurar numa galeria. Nada contra, obviamente; existe essa tradição da pintura que a fotografia acabou por adotar. Mas eu vejo a fotografia como ferramenta, usada para conhecer.

O par de botas me permite um deslocamento confortável; a fotografia é a coleta de imagens para, depois, eu pensar sobre elas e construir artefatos de comunicação, que são principalmente os livros e as exposições. Eu gosto muito de expor muitas fotografias. E essa construção - voltamos à ideia de arquitetura - é algo entre a arquitetura e a utopia. É sobre nós mesmos, humanos. Sobre as condições do nosso habitar neste planeta, por que estamos aqui. No fundo, o significado da vida.

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