O expositor de cartões-postais no principal centro de visitantes de Yellowstone já foi, por um tempo, uma espécie de revolução silenciosa.
Havia guardas-parque em cadeiras de rodas, sorrindo sob a neve. Crianças de todas as tonalidades abraçando bichos de pelúcia de bisão carimbados com “Todo mundo pertence lá fora”. Numa manhã cinzenta de janeiro, uma caixa operadora temporária viu um supervisor retirar aqueles cartões, um a um, e jogá-los dentro de uma caixa de papelão marcada com um X grosso de caneta preta. Ninguém pronunciou a palavra “diversidade”. Não era necessário. As novas instruções tinham vindo de Washington - e o recado estava mais do que claro.
Do lado de fora, o ar misturava cheiro de pinho com fumaça de escapamento. Famílias descarregavam carrinhos de bebê e caixas térmicas, sem imaginar que, lá dentro, ocorria outro tipo de “limpeza”. A América que caminhava pelas trilhas era barulhenta, diversa, contraditória. Já a América exposta nas prateleiras começava a ser editada para parecer mais simples, mais segura, mais familiar. É nesse intervalo entre as duas versões do país que esta história realmente se encaixa.
De memorando silencioso a estopim nacional
As ordens novas chegaram como uma pedra na caixa de entrada de superintendentes de parques por todo o país: itens vendidos em lojas de lembranças de parques nacionais que promoviam DEI - diversidade, equidade e inclusão - tinham de sair. Nada de pins arco-íris com “Encontre seu parque”. Nada de livros que destacassem narrativas negras, indígenas, latinas ou LGBTQ+ como parte de um esforço deliberado de inclusão. No papel, a diretriz soava burocrática, quase sem cor. No dia a dia, ela bateu de um jeito pessoal.
Pessoas que haviam ajudado a montar e refinar aquelas vitrines ao longo da última década passaram a lidar, de repente, com uma virada seca e direta. Alguns descreveram a sensação como “voltar no tempo”, à medida que as prateleiras eram reorganizadas para priorizar paisagens, vida selvagem e símbolos patrióticos genéricos. Para parte do público, parecia tudo igual. Para outros, a falta gritava.
Uma jovem guarda-parque latina, no Arizona, contou que viu uma família procurar os livros infantis bilíngues que antes ficavam logo na entrada - e se deparar apenas com um espaço vazio onde, até pouco tempo atrás, havia uma torre colorida.
Na Borda Sul do Grand Canyon, um ex-gerente lembra do choque. Alguns anos atrás, a orientação de Washington era “representar todos os americanos” nas histórias e nas lembranças dos parques. Isso significava mais autores indígenas, mais exploradoras, mais narrativas centradas em pessoas com deficiência. As vendas não explodiam, mas tinham peso e intenção. Agora, mensagens internas passaram a sinalizar qualquer coisa que “pudesse ser percebida como mensagem ideológica”. Não existia uma lista definitiva: funcionários trocavam capturas de tela e circulavam palpites em voz baixa. Um cartão-postal com uma bandeira do Orgulho numa placa de trilha sumiu de um dia para o outro. Um livreto sobre a história do Juneteenth foi, discretamente, parar no escritório administrativo. A remoção avançou sem gritos - só com um apagamento repetitivo e silencioso.
Do lado de fora dos parques, a reação política cresceu na mesma velocidade. Comentaristas conservadores celebraram a medida como forma de “tirar a política ‘woke’ de espaços de família”. Parlamentares progressistas chamaram o movimento de censura disfarçada de atendimento ao cliente. Grupos de defesa lembraram que produtos ligados a DEI dentro dos parques nunca foram apenas ecobags e ímãs: eles funcionavam como um sinal de quem é bem-vindo nas trilhas e nas narrativas expostas nas paredes. Quando esses sinais desaparecem, certas pessoas captam a mensagem emocional na hora.
Como a retirada acontece de fato, passo a passo
Numa loja típica de lembranças de um parque nacional, tudo começa por uma planilha - não por um slogan. A sede envia novas orientações, e alguém da gerência intermediária transforma isso numa lista de SKUs (códigos de itens) marcados para revisão. A equipe imprime a lista, percorre os corredores e passa a recolher o que pareça ter qualquer ligação com campanhas de DEI: logotipos arco-íris, linguagem de “equidade”, coleções que celebram grupos historicamente marginalizados. A norma vira, muitas vezes, “na dúvida, tira”. De repente, até uma caneca simples escrita “Todos são bem-vindos” parece um risco.
Um ex-comprador explica que a parte pesada acontece longe do salão. Caixas são reetiquetadas ou empilhadas em cantos “até segunda ordem”. O sistema de inventário é ajustado para que esses produtos deixem de aparecer na contagem oficial. Alguns itens seguem para depósitos centrais, onde o destino fica indefinido. Outros apenas ficam parados. Sendo bem honestos: ninguém vive isso todos os dias em tempos normais - mas, sob pressão política, o ritmo habitual das trocas sazonais dá lugar a uma triagem quase contínua. E a equipe volta sempre à mesma pergunta: isso é história ou isso é política?
O efeito dominó não para no caixa. Editoras pequenas e fornecedores de artesanato de propriedade indígena, que levaram anos para construir relação com as lojas dos parques, veem pedidos suspensos ou cancelados. Um livro infantil sobre escaladores negros, que vendia de forma constante em Yosemite, perde seu principal canal de varejo com um único e-mail. Uma organização LGBTQ+ de atividades ao ar livre, que colaborou em adesivos de “Orgulho nos Parques”, recebe a informação de que a linha está “em revisão”. No balanço, são itens modestos. Na experiência concreta de quem visita, eles costumam ser o único indício de que a história de certas pessoas existe ali.
Há ainda outra camada: a de quem trabalha no parque. Muitos guardas-parque mais jovens chegaram ao Serviço Nacional de Parques impulsionados por esforços de recrutamento ligados a DEI, bolsas e programas de mentoria. Para eles, as prateleiras e os painéis do centro de visitantes eram continuação dessa promessa. Ver essas peças arrancadas sob um novo governo parece como se o chão se movesse sob as botas. Um guarda-parque resumiu assim: “é como me mandarem guardar de novo minha identidade no porta-luvas, como antes”. Os produtos podem caber nas caixas, mas o ressentimento não cabe.
O que visitantes, funcionários e marcas podem fazer de verdade
Para quem visita e só quer fazer trilha, é fácil minimizar e dizer: “é só lembrancinha”. Mas existe uma leitura mais prática do ambiente. Ao entrar numa loja de parque hoje, repare em quem aparece nas capas dos livros, quais rostos estão nos cartões-postais, quais vozes viram citações nos souvenirs. Se algo parece ter sumido em relação a alguns anos atrás, essa ausência é um dado.
Dá para perguntar com calma para a equipe: “Vocês ainda vendem livros sobre história indígena aqui?” ou “Onde posso aprender sobre guardas-parque negros neste parque?”. Essas perguntas contam. Elas mostram para quem está no balcão que alguém notou o que está na prateleira - e o que deixou de estar. Para quem tem um pouco mais de disposição, escrever um comentário curto no centro de visitantes ou online, citando títulos específicos que você gostaria de encontrar, pode influenciar decisões locais. Não é um cartaz de protesto, mas, com o tempo, um retorno consistente e concreto pode reduzir a rigidez de diretrizes duras.
Para funcionários presos no meio do fogo cruzado, a autopreservação vem antes. Brigar por cada caneca pode esgotar qualquer um rapidamente. Alguns guardas-parque redirecionaram a energia para o que não dá para encaixotar com facilidade: as histórias contadas em visitas guiadas, a forma de contextualizar o passado em conversas na saída das trilhas, os nomes destacados em programas de guarda-parque mirim. Numa manhã de verão lotada, cinco minutos falando sobre um guia navajo ou um alpinista queer chegam a mais gente do que qualquer marcador de página impresso.
Também existem contornos práticos. Alguns parques passaram a orientar visitantes a livrarias locais ou centros culturais tribais do lado de fora dos portões, onde material ligado a DEI continua circulando sem obstáculos. Outros recorrem a organizações sem fins lucrativos do tipo “amigos do parque”, que às vezes enfrentam menos restrições federais em suas lojinhas e lojas online. No plano humano, isso é a resistência silenciosa: manter aberto o caminho por onde as histórias passam, mesmo quando as prateleiras centrais viram um bege neutro.
“Eles podem encaixotar os patches de arco-íris”, disse um guarda-parque veterano, “mas não conseguem me impedir de dizer em voz alta quem construiu esta trilha, quem foi mantido longe desta terra e quem finalmente está aparecendo aqui hoje.”
Quem se incomoda com essa mudança não precisa de gestos grandiosos. Pequenas escolhas, repetidas, acumulam efeito ao longo de uma temporada.
- Pergunte uma vez: “Vocês têm algum livro sobre este parque escrito por autores indígenas ou negros?”
- Direcione seu dinheiro a fornecedores e organizações sem fins lucrativos que mantêm vivas histórias inclusivas.
- Converse com as crianças sobre quais rostos elas veem (ou não veem) nos livros que vocês conseguem encontrar.
Num sábado cheio, isso pode parecer só uma gota no rio. Com tempo suficiente, é assim que culturas se curvam dentro de sistemas rígidos. Em escala nacional, o debate sobre “política nos parques” vai continuar girando. Na trilha, muitas vezes tudo se resume a quem se dispõe a fazer mais uma pergunta baixa no balcão.
Além das prateleiras: que tipo de país os parques refletem?
O que acontece dentro das lojas de lembranças não é apenas uma curiosidade burocrática de nicho. É um campo de batalha visível e concreto numa disputa maior sobre como os Estados Unidos narram a si mesmos. Quando um governo determina a retirada de canecas e livros marcados por DEI, ele também envia um recado codificado sobre quais experiências podem ser tratadas como universais e quais passam a ser enquadradas como “polêmicas”. Em poucos metros de chão de loja, dá para ver um argumento político inteiro se desenrolando em tempo real.
Na prática, o que está em jogo é pequeno e enorme ao mesmo tempo. Uma criança pode sair de Zion com um pôster genérico do cânion, em vez de um livro sobre o povo paiute. É uma faísca a menos. Multiplique isso por milhões de visitantes e dezenas de milhões de lembranças, e fica mais fácil entender como mudanças discretas no que se vende podem inclinar a memória coletiva. E, num nível visceral, muita gente reconhece esse puxão: todos nós já vivemos o momento em que percebemos - um pouco tarde demais - que a versão oficial de um lugar deixou alguém de fora com todo cuidado.
Não existe moral fechadinha aqui. Alguns americanos realmente se sentem aliviados ao entrar numa loja de parque que pareça “apolítica”. Outros sentem um incômodo silencioso quando notam que o expositor de pins do Orgulho sumiu. A maioria só quer uma bebida gelada, um ímã e um mapa decente de trilha. Ainda assim, nesse gesto simples de consumo há uma pergunta mais difícil: os parques nacionais existem apenas para mostrar paisagens bonitas, ou também para nos ajudar a encarar a história completa - irregular, desigual - da terra e das pessoas que estão sobre ela hoje?
| Ponto-chave | Detalhe | Relevância para o leitor |
|---|---|---|
| Retirada nas lojas | Livros, cartões-postais e souvenirs ligados a DEI estão sendo retirados sob novas orientações federais. | Ajuda você a perceber mudanças políticas sutis em espaços comuns de viagem. |
| Impacto nas narrativas | A remoção de produtos de DEI estreita quais histórias e identidades aparecem nos parques. | Convida você a questionar quais experiências ganham destaque - e quais ficam ausentes. |
| Formas de reagir | Ações pequenas: perguntar à equipe, deixar comentários, apoiar fornecedores inclusivos. | Oferece maneiras concretas de agir sem transformar suas férias num campo de batalha. |
Perguntas frequentes:
- Isso é mesmo uma política nacional, ou só acontece em alguns parques? Relatos e e-mails internos indicam uma diretriz ampla que afeta múltiplos parques nacionais e lojas associadas, embora a implementação varie conforme a região e os acordos de parceria.
- O que entra como “produto de DEI” nessas retiradas? Em geral, qualquer item explicitamente ligado a diversidade, equidade, inclusão ou campanhas de Orgulho, além de livros e produtos apresentados no passado como parte de iniciativas de DEI - mesmo quando são históricos ou educacionais.
- Livros históricos sobre grupos marginalizados estão sendo proibidos? Não de forma generalizada, mas alguns títulos vêm sendo colocados de lado ou comprados com mais cautela, sobretudo quando antes eram promovidos como parte de um esforço de DEI, e não como parte de coleções padrão de história.
- Funcionários do parque podem se recusar a cumprir as ordens? Em geral, servidores federais precisam seguir diretrizes legais; a resistência tende a aparecer de maneiras mais suaves, como no conteúdo de programas, em recomendações informais e em parcerias fora do parque.
- O que posso fazer se eu não gostar dessa mudança? Use formulários de comentário, converse com seus representantes eleitos, apoie grupos inclusivos de atividades ao ar livre e gaste seu dinheiro com fornecedores e organizações que mantenham visível uma gama mais ampla de histórias.
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