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Como a navegação polinésia no Pacífico encontra ilhas sem instrumentos modernos

Homem em canoa havaiana com vela branca no mar ao pôr do sol, estendendo o braço direito.

Molhado e tremendo de frio, eu me levantei do flutuador lateral de uma canoa polinésia de navegação. Estávamos no mar desde a tarde e havíamos atravessado quase toda a noite.

Eu esperava cochilar um pouco, mas a combinação de chuva, vento e a falta de qualquer espaço minimamente plano tornou o descanso impossível. Meus companheiros nem chegaram a tentar.

Era maio de 1972, e eu estava havia três meses no trabalho de campo do meu doutorado numa das ilhas mais isoladas do mundo. Anuta é o ponto habitado mais oriental das Ilhas Salomão.

A ilha tem cerca de 800 metros de diâmetro, fica a 120 quilômetros do vizinho habitado mais próximo e continua a ser uma das poucas comunidades em que a viagem entre ilhas em canoas com flutuador lateral ainda é praticada com regularidade.

Meus anfitriões organizaram uma expedição de caça a aves para Patutaka, um monólito desabitado a aproximadamente 48 quilômetros de distância, e me convidaram a integrar o grupo.

Foram 20 horas de travessia até o destino, depois dois dias por lá, e o retorno aconteceu com um vento de popa de 20 nós (cerca de 37 km/h). Essa aventura acabou abrindo caminho para décadas de pesquisa antropológica sobre como povos das ilhas do Pacífico cruzam o mar aberto em pequenas embarcações, sem instrumentos “modernos”, e ainda assim chegam com segurança aos lugares que pretendem alcançar.

As técnicas de orientação variam conforme as condições geográficas e ambientais. Mesmo assim, muitas se repetem em áreas amplas. Entre elas estão o mapeamento mental das ilhas que compõem o universo de navegação dos marinheiros e a posição de destinos potenciais em relação ao movimento das estrelas, às correntes oceânicas, aos ventos e às ondas.

O interesse ocidental pela navegação no Pacífico

Os dois filmes “Moana”, da Disney, trouxeram recentemente a navegação polinésia para os holofotes. No entanto, a admiração europeia por marinheiros do Pacífico vem de séculos.

Em 1768, o explorador francês Louis Antoine de Bougainville batizou Sāmoa como as “Ilhas dos Navegadores”. O célebre capitão britânico James Cook relatou que as canoas indígenas eram tão rápidas e ágeis quanto seus navios. Ele acolheu a bordo Tupaia, um especialista em navegação de Ra'iātea, e registrou a imensa amplitude do conhecimento geográfico de Tupaia.

Em 1938, o estudioso māori Te Rangi Hīroa (também conhecido como Sir Peter Buck) publicou “Vikings do Nascer do Sol”, descrevendo a exploração do Pacífico tal como aparece nas lendas polinésias.

Em 1947, o norueguês Thor Heyerdahl, explorador e arqueólogo amador, cruzou do Peru até as Ilhas Tuamotu numa jangada de madeira de balsa que ele chamou de Kon-Tiki, o que aumentou ainda mais o interesse e inspirou uma sequência de viagens experimentais.

Dez anos depois, Andrew Sharp, historiador radicado na Nova Zelândia e um notório cético, afirmou que uma navegação precisa por milhares de quilômetros sem instrumentos seria impossível. Outros reagiram com estudos etnográficos demonstrando que essas travessias eram, ao mesmo tempo, fatos históricos e práticas ainda em uso.

Em 1970, Thomas Gladwin publicou os resultados de suas pesquisas na ilha micronesiana de Polowat em “O Leste é um Grande Pássaro”. Dois anos mais tarde, “Nós, os Navegadores”, de David Lewis, registrou técnicas de orientação em grande parte da Oceania.

Muitos antropólogos - em conjunto com marinheiros indígenas - ampliaram e aprofundaram o trabalho de Gladwin e Lewis.

Um último fio dessa história é o da navegação experimental. O exemplo mais celebrado é o da Polynesian Voyaging Society. Eles construíram uma canoa de navegação de casco duplo chamada Hōkūle'a, feita com materiais modernos, porém seguindo um projeto tradicional.

Em 1976, sob liderança do navegador micronesiano Mau Piailug, eles conduziram a Hōkūle'a por mais de 4.000 quilômetros, do Havaí ao Taiti, sem instrumentos. Em 2017, a Hōkūle'a concluiu uma circunavegação do planeta.

Ao cruzar o maior oceano da Terra, é possível viajar milhares de quilômetros e não ver nada além de céu e água em todas as direções. Sem uma bússola magnética - e muito menos GPS - como se consegue navegar com precisão até o destino desejado?

Olhando para as estrelas

A maior parte dos navegadores do Pacífico se apoia na navegação celeste. As estrelas nascem a leste, se põem a oeste e, perto do equador, descrevem um trajeto ao longo de uma mesma linha de latitude. Se uma estrela conhecida nasce ou se põe diretamente sobre a ilha-alvo, o timoneiro pode alinhar a embarcação com ela.

Ainda assim, há complicações.

As estrelas visíveis - e também os pontos em que nascem e se põem - mudam ao longo do ano. Por isso, orientar-se exige um entendimento astronômico detalhado.

Além disso, as estrelas estão sempre se deslocando. A que num momento está “em cima” da ilha-alvo logo sobe demais para servir de guia ou desce abaixo do horizonte. Assim, o navegador precisa procurar outras estrelas que percorram uma trajetória semelhante e acompanhá-las enquanto permanecerem visíveis e baixas no horizonte. Essa sequência de estrelas-guia costuma ser chamada de “caminho das estrelas”.

Naturalmente, nem sempre a estrela se alinha de forma exata com o alvo. Nesse caso, em vez de apontar diretamente para a estrela-guia, o navegador a mantém no ângulo adequado.

O navegador também precisa ajustar o alinhamento da embarcação com as estrelas para compensar correntes e ventos que podem empurrar a canoa lateralmente. Esse deslocamento é conhecido como deriva. Por isso, a navegação celeste demanda saber se há correntes, qual é sua velocidade, intensidade e direção - e também conseguir avaliar a força e a direção dos ventos, além do efeito deles sobre a canoa.

Durante o dia, quando as estrelas não aparecem, o Sol pode cumprir função parecida. No início da manhã e no fim da tarde, quando está baixo no céu, os marinheiros o usam para calcular o rumo. Às vezes, porém, nuvens encobrem tanto o Sol quanto as estrelas; nesses momentos, os viajantes recorrem a outros indícios.

Ondas, vento e outros indícios

Um sinal crucial são as marolas de fundo. Elas são ondas geradas por ventos que sopram de modo constante por milhares de quilômetros de mar aberto. Mantêm a direção mesmo quando há ventos temporários ou locais, que produzem ondas de formato diferente, chamadas de “mares”.

Sentindo as marolas sob a embarcação, o timoneiro obtém o rumo correto, inclusive no escuro. Em alguns lugares, pode haver até três ou quatro padrões distintos de marola; os navegadores os diferenciam pelo tamanho, formato, força e direção em relação aos ventos dominantes.

Quando os marinheiros se aproximam da ilha-alvo, mas antes de enxergá-la, precisam identificar sua posição exata. Um indicativo comum são as ondas refletidas: marolas que atingem a ilha e retornam ao mar. O navegador percebe essas ondas refletidas e segue na direção delas. Navegadores do Pacífico que passaram a vida no mar parecem bastante seguros ao confiar nesse sinal. Eu, por outro lado, tenho dificuldade em distingui-las das ondas geradas diretamente pelo vento.

Algumas aves que nidificam em terra e se alimentam no mar também ajudam. De manhã cedo, presume-se que estejam voando a partir da ilha; no fim da tarde, é provável que estejam voltando para seus locais de nidificação.

Às vezes, navegadores percebem um tom esverdeado no céu sobre uma ilha que ainda não está visível. Nuvens podem se acumular sobre um pico vulcânico.

E marinheiros da região Vaeakau-Taumako, nas Ilhas Salomão, relatam faixas subaquáticas de luz conhecidas como te lapa, que, segundo eles, apontariam para ilhas distantes.

Um pesquisador bem conhecido declarou confiança na existência e na utilidade do te lapa. Alguns estudiosos sugeriram que ele poderia ser um fenômeno bioluminescente ou eletromagnético. Por outro lado, apesar de um ano de esforço concentrado, eu não consegui confirmar sua presença.

Estimar a própria posição no mar é outro desafio. As estrelas se movem ao longo de um paralelo e indicam a latitude. Já para avaliar a longitude, é necessário recorrer ao cálculo por estima. Os navegadores calculam sua posição registrando o ponto de partida, a direção, a velocidade e o tempo passado no mar.

Alguns navegadores micronesianos estimam o avanço por meio de um sistema chamado etak. Eles visualizam o ângulo entre a canoa - imaginada como se estivesse parada - e uma ilha de referência situada de lado, que é representada como se estivesse se movendo. Pesquisadores ocidentais têm especulado sobre como o etak funciona, mas ainda não existe consenso.

Por milênios, navegadores do Pacífico se apoiaram em técnicas como essas para alcançar milhares de ilhas, espalhadas pelo maior oceano do planeta. Fizeram isso sem instrumentos ocidentais. Em vez disso, detinham conhecimentos sofisticados e entendimentos compartilhados, transmitidos oralmente por incontáveis gerações.

Richard (Rick) Feinberg, Professor Emérito de Antropologia, Kent State University

Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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