Bloqueados no acampamento-base havia duas semanas, centenas de alpinistas finalmente se preparam para retomar a ascensão do Monte Everest. A rota até o cume voltou a ficar acessível, mas o atraso acumulado - somado ao risco de engarrafamentos em grande altitude - deixa o desfecho da temporada mais imprevisível do que nunca.
Janela meteorológica curta na temporada do Monte Everest
Entre abril e maio acontece a corrida anual rumo ao topo do Everest. É quando os ventos violentos que castigam a montanha, por vezes chegando perto de 200 km/h, enfraquecem e se deslocam para o norte, abrindo uma brecha de clima um pouco mais favorável. Só que essa trégua quase nunca dura mais do que alguns dias - às vezes, menos.
Por isso, as equipes precisam estar prontas para partir, sob o risco de perder essa janela e ter de esperar até o ano seguinte para tentar de novo. Para quem investiu dezenas de milhares de dólares na expedição, depois de meses de preparação física pesada e de uma logística cara, ficar parado é especialmente frustrante. Ainda assim, é o gigante de rocha e gelo que manda: se o “sopro” não acalma, o acesso ao teto do mundo simplesmente não acontece.
Monte Everest: Khumbu Icefall, guardião do caminho até o cume
Para quem sonhava em vencer essa montanha mítica, a temporada começou mal: desde o início de abril, um serac de 30 metros de altura bloqueava a passagem rumo ao Khumbu Icefall, o primeiro grande obstáculo do roteiro. Um serac é o pesadelo de qualquer alpinista - uma coluna de gelo instável, capaz de desabar a qualquer instante. Assim, centenas de pessoas ficaram presas no acampamento-base, a 5 364 metros de altitude. Há dois dias, em 28 de abril, uma equipe de Sherpas conseguiu abrir caminho e alcançar o Acampamento I, 1 700 metros mais acima.
Saindo do acampamento-base, é preciso atravessar primeiro o Khumbu Icefall (a “cascata de gelo” de Khumbu), um glaciar em movimento constante, cheio de fendas gigantes e seracs. Trata-se de um dos trechos mais letais de toda a escalada, e foi ali que o jovem youtuber francês Inoxtag também enfrentou dificuldades durante as gravações do documentário Kaizen.
Na prática, o Khumbu é um glaciar suspenso que despenca de um paredão enorme acima do primeiro patamar do Everest. Ele marca a fronteira entre o conforto - relativo - do acampamento-base e o inferno congelado das encostas mais altas. Não é raro que seracs interrompam a passagem, e este, em particular, vinha ameaçando cair havia duas semanas.
O trabalho dos “icefall doctors” no Khumbu Icefall
Quem acabou reabrindo a rota foram os “icefall doctors”: 19 sherpas cuja função é “domar” esse glaciar. A cada temporada, eles recomeçam o mesmo serviço do zero: fixar cordas no gelo vivo das paredes, posicionar escadas de alumínio sobre fendas escancaradas e redesenhar um traçado o menos suicida possível dentro do temperamental Khumbu. Em alguns momentos, o avanço é de apenas um metro por dia. E, como é um dos glaciares mais rápidos do planeta, ele pode apagar em poucas horas o trabalho dos sherpas.
Passado o Khumbu, a rota se organiza em quatro acampamentos: o Acampamento I a 6 060 metros, o Acampamento II a 6 400 metros, o Acampamento III a 7 200 metros e o Acampamento IV a 8 000 metros - a entrada da famosa “zona da morte”. Nesta temporada, nenhum desses patamares estava bloqueado: o único ponto realmente fechado era o Khumbu, a única área impossível de contornar.
Lhakpa Sherpa, funcionário da empresa 8K Expedition e coordenador da operação conduzida pelos icefall doctors, confirmou que “eles devem fixar cordas até o Acampamento II, o que não é difícil”. Um sangue-frio que quase faz esquecer que esse trecho “fácil” é, na realidade, uma área onde acontece uma parte significativa dos acidentes fatais.
Atraso, engarrafamentos na “zona da morte” e controvérsia sobre permissões
Com a rota liberada, os alpinistas podem voltar a subir em direção ao cume do Everest - assim como aqueles que miravam o Lhotse e o Nuptse, dois picos próximos que exigem compartilhar certos trechos do percurso. Agora, todo esse grupo precisa compensar o atraso em um calendário já bastante encurtado pelo serac que ameaçava o Khumbu.
Kenton Cool, britânico em sua vigésima tentativa no Everest - recorde absoluto entre os não nepaleses - não demonstra muita confiança: “Esse atraso vai empurrar as tentativas de cume e provavelmente criar engarrafamentos na cascata de gelo e talvez no topo […]”.
E vale lembrar que a zona da morte, localizada a 8 000 metros de altitude entre o Acampamento IV (o Colo Sul) e o cume, não é exatamente o lugar onde alguém quer ficar em fila. Ainda assim, como o Governo do Nepal não define um teto legal para o número de permissões emitidas para escalar o Everest (425 neste ano, e 153 para o Lhotse e o Nuptse), as chances de isso acontecer são grandes. Esse é, inclusive, um dos debates mais acalorados ligados a esse maciço - mas, para o país, a ascensão representa uma fonte de receita considerável: milhões de dólares por ano, sem contar os efeitos na economia local. Hoje, a escalada do Everest virou uma verdadeira autoestrada, disputada anualmente por centenas de alpinistas endinheirados: um negócio de altitude que não conhece crise.
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