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Guia do arquipélago de Chiloé no Chile

Mulher segurando tigela com comida quente, observando casas coloridas sobre palafitas em vila à beira-mar.

No panorama turístico do Chile, o arquipélago de Chiloé segue como um destino à parte dos circuitos mais disputados - longe dos vinhedos do vale central, das estações de esqui e dos maciços de granito da Patagônia. A área fica a algumas horas ao sul de Puerto Montt, onde o continente se transforma em um conjunto de ilhas que mantém uma identidade forjada na relação entre terra e mar, na arquitetura de madeira, na cozinha local e em narrativas passadas de geração em geração.

Integrante da Região de Los Lagos, o arquipélago é composto por cerca de 35 ilhas ao redor da Isla Grande de Chiloé e é separado do continente pelo Canal de Chacao. A principal ilha do grupo é também a segunda maior do Chile e a quinta maior da América do Sul.

O afastamento geográfico contribuiu para a criação de uma cultura singular, distinta de outras partes do país. Em Chiloé, áreas de campos verdejantes encontram o oceano Pacífico, palafitas se espalham pela orla e um clima de neblina com mudanças rápidas de temperatura ajuda a definir a paisagem.

Não existe voo direto do Brasil para Chiloé. Para brasileiros, a rota mais simples costuma passar por Santiago e seguir para Puerto Montt, pelo Aeroporto El Tepual, a principal porta de entrada aérea da região. Há ainda a opção do Aeroporto de Mocopulli, nos arredores de Castro, com menor oferta de voos - mas, nas duas alternativas, é necessário fazer conexão na capital chilena.

A partir de Puerto Montt, a viagem continua por via terrestre até o porto de Pargua, ponto de embarque das balsas que cruzam o Canal de Chacao rumo à ilha. O trajeto leva entre 30 e 40 minutos e acontece ao longo de todo o dia, com saídas a cada 15 ou 20 minutos.

Travessia pelo mar marca chegada ao arquipélago de Chiloé

No percurso entre o continente e o arquipélago de Chiloé, dependendo do estado do mar, dá para observar golfinhos e cisnes. Hoje, a balsa segue como o único acesso terrestre para veículos, enquanto a Ponte de Chacao permanece em obras, com estimativa de conclusão por volta de 2028.

Quem viaja de ônibus a partir de Puerto Montt faz o caminho completo, incluindo o embarque do próprio veículo na balsa. Já no arquipélago, alugar um carro é uma das escolhas mais comuns para circular, sobretudo para alcançar estradas secundárias que conduzem a comunidades pequenas, capelas e mirantes.

O tempo interfere diretamente na vivência em Chiloé. O verão austral, de dezembro a março, concentra o maior fluxo de visitantes, com dias mais longos, festivais gastronômicos e cenário favorável para trilhas e para a observação da fauna.

Na primavera e no outono, normalmente há menos turistas, as paisagens seguem muito verdes e os preços tendem a ser mais baixos. No inverno, por sua vez, o arquipélago ganha um clima de frio, chuva e neblina - período associado às histórias e tradições que alimentam o imaginário chilote.

É também durante o inverno que muitos viajantes buscam provar o curanto, prato típico do arquipélago feito com frutos do mar, carnes, batatas, milcao e chapalele, cozidos lentamente em um buraco no chão sobre pedras aquecidas e cobertos com folhas de nalca.

Igrejas de madeira contam a história de Chiloé

A construção da identidade cultural de Chiloé veio do encontro de diferentes povos. A presença huilliche - grupo originário de matriz mapuche - e chono, povo canoeiro dos canais austrais, se combinou com a colonização espanhola e com a atuação dos jesuítas a partir do século 18.

Esse cruzamento de influências aparece com força na arquitetura das igrejas de madeira. No arquipélago, foram erguidos cerca de cem templos, e 16 deles receberam o título de Patrimônio Mundial da Unesco.

As edificações seguem a chamada escola chilota, desenvolvida por mestres carpinteiros que levaram aos templos técnicas usadas na construção de embarcações. Os telhados lembram cascos de barcos virados ao contrário, e muitas estruturas foram montadas com encaixes e cavilhas.

Um exemplo é a Igreja de Santa María de Loreto, em Achao, datada de 1740. O edifício foi construído sem pregos e abriga um museu com peças de imaginária feitas por santeiros chilotes.

Outro ícone do arquipélago são as palafitas de Castro, casas de madeira apoiadas em estacas na beira d’água. No bairro Gamboa, a sequência de fachadas coloridas compõe uma das imagens mais emblemáticas de Chiloé.

Mitos seguem presentes no cotidiano da ilha

A cultura chilota também se reconhece por uma mitologia que continua viva nas conversas e nos hábitos da população. Entre as figuras mais conhecidas estão o Trauco, a Pincoya e o Caleuche.

O Trauco costuma ser apresentado como um ser das florestas, enquanto a Pincoya surge ligada ao mar e à pesca. De acordo com a tradição, a dança dela sinaliza fases de abundância ou de escassez dos recursos marítimos.

O Caleuche, por sua vez, é retratado como um navio fantasma que navega em meio a neblina e luzes, associado a relatos de navegadores e comerciantes da área.

O cotidiano em Chiloé segue conectado às marés, à pesca, ao trabalho comunitário e ao plantio de batata. O arquipélago conserva mais de 200 variedades nativas do alimento, que tem papel central na culinária local.

Entre os destinos mais importantes está Castro, capital do arquipélago e terceira cidade mais antiga do Chile. A cidade reúne as palafitas do bairro Gamboa, a Igreja de San Francisco e restaurantes voltados aos pratos tradicionais.

Natureza, parques e gastronomia fazem parte do roteiro

Ao norte, Ancud concentra pontos históricos como o Forte San Antonio e o Museu Regional. O município também serve de base para conhecer as pinguineiras de Puñihuil, uma reserva natural que abriga pinguins-de-magalhães e pinguins-de-humboldt.

Dalcahue oferece mercado de artesanato em lã, cozinhas tradicionais e conexão para a Isla Quinchao, onde ficam povoados como Achao e Curaco de Vélez. Nessa área, as igrejas históricas integram o patrimônio cultural do arquipélago.

O Parque Nacional Chiloé protege mais de 42 mil hectares de floresta fria valdiviana, dunas e trechos voltados para o Pacífico. Em setores como Cucao, o parque disponibiliza trilhas e boas chances de observar aves e mamíferos marinhos.

Para quem consegue ficar mais dias na região, a Isla Lemuy inclui o município de Puqueldón, escolhido em 2022 pela Organização Mundial do Turismo como um dos Best Tourism Villages. Ali estão três igrejas reconhecidas pela Unesco: Ichuac, Aldachildo e Detif.

No extremo sul, Quellón indica o término da estrada Panamericana, que tem início no Alasca. Já a pequena Isla Aucar, acessível por uma passarela de madeira, é conhecida pela lenda que a relaciona às chamadas almas navegantes.

A gastronomia ocupa um lugar fundamental na experiência chilota. Preparado coletivamente, o curanto reúne frutos do mar, carnes, batatas e acompanhamentos tradicionais em um método de cozimento ligado às práticas comunitárias do arquipélago.

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