Grupos de viagem nas redes sociais estão lotados de alertas e pedidos de ajuda. “Ir para a Itália em julho fica realmente inviável?”, questiona um participante. Vai ter gente demais? As respostas seguem uma linha parecida: “Para mim, a lotação é o de menos. O maior problema é o calor infernal (...) 45° em Roma”, “calor dos infernos”, “inviável, calor e multidões”. Um relato resume o sufoco: “Fui conhecer a Capela Sistina e no chão só vi pés, e por cima cabeças.”
É um grupo de brasileiros, e a comparação com o Brasil aparece logo. “Moro no Rio [de Janeiro] e mesmo assim senti muito, o calor é extremo”, diz uma pessoa. Outra reforça: “Fui e quase derreti. É um calor diferente do nosso, parece que falta o ar.”
Em outro grupo do Facebook, desta vez focado em Portugal, uma norte-americana chamada Meara Jones conta que não existe país que ela goste tanto de visitar - especialmente o Algarve -, mas publica duas fotos que, segundo ela, explicam “por que razão as pessoas dizem para não ir em julho e agosto”. Numa imagem, a Praia da Rocha, em Portimão, aparece em maio às 11h, com a areia quase vazia e cerca de 26 graus. Na outra, já em agosto, são 18h, ainda está perto de 33 graus e há tanta gente que estender mais uma toalha em linha reta seria praticamente um atropelamento.
A combinação de calor intenso com superlotação, ao mesmo tempo, está levando milhares de viajantes a “optar por alternativas mais frescas e tranquilas [em relação] aos tradicionais destinos de verão na Europa”, como apontou a Plataforma de Turismo da União Europeia. O ano de 2025, em particular, tem sido marcado por fenômenos extremos, incluindo incêndios florestais de grande escala no sul da Europa - Portugal, Espanha, Grécia e Itália somaram, juntos, mais de 750 mil hectares de área queimada no verão passado.
Na esteira da retomada do turismo pós-pandemia - período em que vários países do sul da Europa e do Mediterrâneo também bateram recordes de temperatura -, ganhou força o conceito de coolcations, uma expressão em inglês associada à ideia de “férias frescas”, em tradução livre. Para muita gente, isso está virando do avesso a pergunta clássica do verão: se antes a dúvida era “onde está quente?”, agora passou a ser “onde não está?”.
“Os nossos dados mostram que, nos últimos dois anos, cerca de 75% a 80% das pessoas afirmam consistentemente que as alterações climáticas afetam os seus hábitos de viagem, com muitas a procurarem ativamente climas mais amenos, a monitorizar as condições meteorológicas mais de perto ou a evitar destinos propensos ao calor extremo”, disse ao Expresso Eduardo Santander, CEO da Comissão Europeia de Turismo (ETC), entidade que promove a Europa como destino e representa autoridades turísticas dos Estados-membros. Segundo ele, a ETC também percebe um aumento “do interesse em viajar fora dos meses de pico do verão”, o que indica “uma mudança gradual tanto na escolha do destino como no período da viagem”.
Os países nórdicos estão atentos - e aproveitando o momento. A agência de turismo da Suécia, Visit Sweden, vem insistindo no tema das coolcations: “Porque não passar este verão onde o ar permanece refrescantemente ameno, os dias parecem intermináveis e as atividades ao ar livre podem ser desfrutadas sem um calor opressivo?”
A organização equivalente na Noruega segue a mesma estratégia e puxa outro argumento: a imensa faixa litorânea do país (a segunda maior do mundo, com cerca de 100 mil quilômetros, atrás apenas do Canadá). Com isso, afirma que algumas praias norueguesas “têm até areia branca imaculada e água turquesa”.
A organização de turismo da Suécia, Visit Sweden, não tem largado o tema das coolcations
“Parece tropical”, empolgam-se os noruegueses, “embora as temperaturas possam não corresponder a esta descrição”. E isso não os “incomoda”, já que uma praia pode servir para “muito mais do que apenas apanhar sol” - assim como as florestas e as cidades. Por isso, a Visit Norway propõe: “Em vez de suar em complexos de praia apinhados, imagine respirar o ar puro da região nórdica, andar de caiaque por entre fiordes cristalinos, fazer trilhos sob o sol da meia-noite ou simplesmente desfrutar de uma escapadinha na cidade sem derreter no asfalto.”
Eduardo Santander descreve esse movimento como uma “tendência gradual e emergente”, que ainda precisa ser acompanhada com cautela, porque “os viajantes tendem a reagir a eventos extremos no curto prazo, mas estas preocupações podem diminuir” com o passar do tempo. Ainda assim, ele aponta sinais iniciais nas chegadas e pernoites nos países nórdicos e na região do Báltico. “Em 2025, a Finlândia (+14,1%), a Noruega (+12,9%), a Polónia (+12,0%) e a Eslováquia (+10,8%) registaram ganhos assinaláveis no número de visitantes.”
ÁGUA NA FERVURA
Ainda é cedo para chamar isso de virada estrutural - muito menos para dizer que países como Portugal perderiam o posto de queridinhos do turismo. Carlos Costa, professor catedrático de turismo da Universidade de Aveiro, organiza essa ideia em dois pontos. Primeiro, porque “as condições macroeconómicas e geopolíticas favorecem o país” e devem continuar favorecendo nos próximos anos, considerando a instabilidade no Oriente Médio e no Leste europeu. Segundo, porque Portugal, assim como Itália ou Grécia, também pode se transformar, à sua maneira, em destino de coolcations.
Para Carlos Costa, é “fundamental o país começar a pensar em alterações que o levem a um turismo mais qualificado e inteligente”. Ele alerta que, até aqui, predominou o “piloto automático”: o turismo visto apenas como “produto de marketing”, com “muito pouco planeamento territorial”. Isso ajuda a entender por que Portugal, segundo ele, não vive exatamente o sobreturismo no país todo, mas convive com a sensação constante de excesso - sobretudo em áreas centrais de Lisboa e Porto e nas praias do Algarve.
“Temos sobreturismo em determinados territórios, devido à fraca gestão, que faz com que os turistas vão todos para os mesmos sítios.” O problema pode estar tanto em cidades quanto em recortes dentro delas. Ele dá um exemplo: “No Porto, falamos de excesso de turismo na zona da Ribeira, em algumas artérias ali à volta. Mas o Porto é muito grande, temos de o esticar” também para quem chega para visitar.
Durante a pandemia, parecia que o recado tinha sido suficiente: além de as pessoas tenderem a buscar lugares menos cheios, a gestão ambiental e de recursos se tornaria central. Naquele período, Carlos Costa participou de um estudo para a Comissão Europeia, junto com colegas de outros países, sobre diretrizes para o futuro do turismo. Dali saiu um imperativo: “criar roteiros a partir das cidades consideradas pontos de receção”, onde a maioria começa a viagem, “para depois, de forma radial, termos itinerários a entrar nas zonas rurais e menos povoadas”.
A proposta não é “expulsar” o turismo das grandes cidades nem abrir mão do litoral português - “o pior que há é desaproveitar um bom negócio” -, e sim apostar em “diversificar”. “Temos uma história fabulosa, património, cultura”, lista o especialista, lembrando que alguns colegas que visitam Portugal “ficam admiradíssimos com a qualidade das estradas ou das universidades”.
Essa adaptação passa por temas bem concretos. Um deles é a gestão da água: neste ano, isso até não deve ser um problema (as represas encheram depois de um inverno muito chuvoso), mas em verões recentes - e certamente em outros que virão - foi necessário “fazer racionamento, o que tem enorme impacto no turismo”. Outro ponto é investir em mobilidade suave e em transportes que facilitem o deslocamento e espalhem visitantes pelo território como manchas de óleo.
Também entra na conta tornar caminhadas e ciclismo menos sofridos nos dias mais quentes: se o espaço público for planejado para isso, com muitas árvores e bastante sombra, a experiência melhora. E há ainda a prevenção de incêndios. Falta, resume Carlos Costa, “um turismo mais atrativo em termos ambientais”. “Apesar de não estarmos a sentir, para já, alterações [na procura], elas vão acontecer.”
Para quem viaja de moto, o clima sempre foi determinante. Por isso Nuno Madeira descreve as condições meteorológicas em cada publicação do blog “Diário do Viajante”, onde reúne impressões e compartilha dicas do que observa na estrada. Ele se considera privilegiado por poder decidir quando sai e quando volta, ao contrário de um companheiro de viagem que “dá aulas e fica muito limitado para tirar férias”, sem conseguir escapar dos meses mais disputados.
Mesmo tendo flexibilidade, Nuno já encarou situações complicadas: uma delas foi a viagem de moto até Istambul, sempre sob calor de meio-dia; outra, uma passagem pela Itália em junho, quando o termômetro já marcava 40 graus. Ele conta que nunca chegou a trocar de rota por causa da temperatura (diferente do que ocorreu numa tempestade, que o fez desviar até a Eslovênia), mas admite que sua bússola já está apontada para o norte. “A minha ideia é experimentar um mês no inverno e um mês no verão. No inverno, pelas auroras boreais. E, no verão, porque sou adepto da natureza e aquilo é do outro mundo.”
Coolcations para pôr na lista
Nuuk
Por motivos políticos, mas também por lazer, a capital da Groenlândia vem ganhando atenção. É uma coolcation em todos os sentidos, tanto pelas temperaturas quanto pela sensação de isolamento - que, em alguns momentos, chega a ser literal. O destino passou a contar com rotas recentes, incluindo voos diretos a partir de novas cidades, como Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, além de várias opções na Europa.
Bergen
Na costa oeste da Noruega, a cidade portuária de Bergen funciona como porta de entrada para fiordes e montanhas - e também faz sentido para quem busca um verão mais moderado. Agosto pode ser, talvez, o melhor mês para ficar em cidades como esta, onde a chuva aparece com frequência.
Galway
Terceira maior cidade da Irlanda, Galway é conhecida como capital dos festivais, que podem ir de corridas de cavalos a eventos de marisco e artes visuais. O clima, como se espera, é imprevisível.
Interlaken
Cercada por lagos e montanhas, Interlaken é mais uma cidade-base para montar um roteiro - desta vez pelos Alpes suíços. Dentro de Interlaken, valem as caminhadas ao redor dos lagos, os esportes de aventura e travessias de barco mais confortáveis. Também entram no plano as pequenas vilas a menos de 20 quilômetros, como Grindelwald.
Riga
Para um passeio urbano de verdade, a capital da Letônia entrega: a cidade é rica em Art Nouveau, tem avenidas amplas e um centro histórico reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO. Marcada por 50 anos de ocupação - e agora novamente sob ameaça -, Riga reúne história e promessas de futuro.
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