A floresta de álamos volta a redesenhar a linha do horizonte do Parque Nacional de Yellowstone depois de décadas de polémica em torno das tentativas de devolver os lobos ao ecossistema.
Pela primeira vez em 80 anos, o crescimento bem-sucedido de um novo dossel (estrato superior) de álamos confirma o trabalho de conservacionistas que defenderam a proteção e a recuperação de predadores pelo papel que exercem para manter os ecossistemas do parque capazes de se sustentar por conta própria.
Do desaparecimento dos lobos ao colapso ecológico em Yellowstone
Na década de 1920, quando o predador canídeo foi eliminado do parque, não era evidente que existiam ligações decisivas entre as populações de lobos-cinzentos (Canis lupus) e as árvores de álamo-tremedor (Populus tremuloides). A erradicação foi consequência de programas governamentais de controlo que incentivavam a caça de predadores como lobos, coiotes e pumas.
Entre as presas dos lobos estão os wapitis (Cervus canadensis), que roem mudas de álamo e de choupo e pisoteiam o solo exposto com os cascos. Quando são mantidos sob controlo por predadores naturais, o número desses cervídeos - e, portanto, os danos causados pela mastigação e pelo pisoteio - fica limitado. Já sem lobos, a população aumenta e o apetite por brotos leva ao sobrepastoreio.
Ainda em 1934, um grupo de cientistas registou que "a área estava em estado deplorável quando a vimos pela primeira vez [em 1929], e sua deterioração vem progredindo de forma constante desde então".
À medida que os antigos bosques de álamos morriam, não surgiam árvores novas para substituí-los. Espécies que dependem de álamos maduros, como castores e aves que nidificam em cavidades, ficaram sem habitat. Sem lobos, o ecossistema começava a desmoronar.
A reintrodução dos lobos e a recuperação do dossel de álamos
Foram necessárias décadas de pressão e pedidos formais, mas, em 1995, os lobos foram reintroduzidos no parque. Depois de se adaptarem, indivíduos trazidos do Parque Nacional de Jasper, no Canadá, estabeleceram-se e passaram a desempenhar o seu papel: caçar wapitis e, de forma indireta, proteger as árvores jovens. Com poucas ou nenhumas árvores remanescentes no dossel, muitos dos bosques de álamo de hoje são considerados destinados a desaparecer caso não haja mudas para os substituir.
Agora, passados trinta anos, esses lobos contribuíram para o surgimento de uma nova geração de álamos - a primeira a formar um dossel no parque desde a década de 1940. Esses conjuntos de árvores, que já ultrapassaram oficialmente a fase frágil de muda, demonstram o êxito do programa de reintrodução e reforçam a importância de predadores de topo para manter um ecossistema saudável.
"A reintrodução de grandes carnívoros iniciou um processo de recuperação que havia sido interrompido por décadas", afirma o ecólogo Luke Painter, da Universidade Estadual do Oregon, que liderou o estudo.
O que o estudo mediu (e o que mudou desde os anos 1990)
"Cerca de um terço dos 87 bosques de álamo que examinámos tinha grandes quantidades de mudas altas espalhadas por toda a área - uma mudança notável em relação aos anos 1990, quando os levantamentos não encontraram nenhuma", diz Painter.
No artigo, Painter e a equipa definem, entre os álamos, que mudas são indivíduos com menos de 2 metros (cerca de 6,6 pés) de altura, ou com troncos mais finos do que 5 centímetros de diâmetro à altura do peito (DAP); já as árvores têm troncos com DAP acima de 5 centímetros.
Entre todos os bosques amostrados, 43% apresentavam árvores novas e pequenas que ultrapassaram esse limite de diâmetro. E, desde 1998, a densidade de mudas com mais de 2 metros de altura aumentou 152 vezes, o que significa que agora existem muito mais possibilidades de sobrevivência a longo prazo.
Para confirmar que o efeito se devia ao regresso dos lobos ao parque - e não a outros factores, como o clima -, o grupo também mediu as taxas com que os wapitis consumiam as árvores. Eles observaram que os bosques com muitas mudas altas tinham taxas de ramoneio muito menores; por outro lado, áreas que continuam a ser roídas pelos wapitis não estavam a produzir esses novos recrutas da floresta.
Segundo Painter, isso é um indício inequívoco de que a recuperação das árvores faz parte de uma cascata trófica de cima para baixo.
"Este é um caso notável de restauração ecológica", diz Painter. "A reintrodução de lobos está a produzir mudanças ecológicas de longo prazo, contribuindo para o aumento da biodiversidade e da diversidade de habitats".
A pesquisa foi publicada na revista Ecologia e Gestão Florestal.
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