Se você não tem medo de encarar o vazio, vá em frente: assista a essa aberração visual e enxugue as lágrimas.
A Coca-Cola ajudou a moldar boa parte do imaginário que hoje se associa ao Natal: o vermelho chamativo do Papai Noel e até ursos polares com jeito “fofo”. Desde os anos 1930, a empresa ficou conhecida pela sua liturgia publicitária na chegada das festas de fim de ano, apresentando o refrigerante como emblema de celebração, convivência e família.
Só que, neste ano, a “missa” ganhou (de novo) outro celebrante - e a companhia norte-americana decidiu entregar a criação da sua publicidade de 2025 para a IA. Se a Google tentou algo parecido recentemente e chegou a um resultado visualmente bem aceitável, a líder de vendas de refrigerante se atrapalhou feio e entregou um show esquisitíssimo, para não dizer assustador.
Coca-Cola, coveira oficial do espírito de Natal
A marca já tinha flertado com o assunto em 2023, com uma garrafa em edição limitada criada por IA; em 2024, avançou mais um pouco e lançou três anúncios também gerados artificialmente. Como dá para ver abaixo, o saldo foi simplesmente desastroso: rostos apavorantes, artefatos visuais por todo lado e uma aparência sintética de doer; “sombrio” é a palavra que vem à cabeça para definir.
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Pelo visto, a empresa não repensou a rota e resolveu insistir neste ano, “dobrando a aposta”. De acordo com o Wall Street Journal, a nova campanha foi produzida em parceria com os estúdios Silverside e Secret Level, os mesmos por trás do fiasco anterior. Desta vez, a companhia achou melhor fugir de rostos humanos e apostar em… animais.
IA no comercial de Natal da Coca-Cola: animais, “Vallée de l’Étrange” e um resultado torto
Então, embora o acabamento esteja claramente acima dos vídeos anteriores, vamos ser diretos: é feio e exala a Vallée de l’Étrange como nunca. A iluminação, no geral, até funciona, mas o restante dá tudo errado. Os animais do anúncio (ursos, pinguins, focas, preguiças, coelhos, cachorros etc.) exibem um olhar bobo e vidrado; as texturas são horríveis, as animações também, e as passagens entre cenas são desajeitadas.
O filme, com uma longa duração de um minuto, fica oscilando entre um hiper-realismo constrangedor e um cartoon sob ácido, tudo isso embalado por uma trilha musical meio fora de contexto. Você pode formar sua própria opinião (veja abaixo), mas, quando se compara com o que Sora 2 (Open AI) e Veo 3.1 (Google) conseguem produzir, é inevitável se perguntar se o marketing da Coca-Cola sequer assistiu ao vídeo antes de colocar no ar.
Um Natal “ao preço de custo” - e dá para perceber
O mais inacreditável é que o diretor de marketing da Coca-Cola, Manolo Arroyo, ainda comemora: “Antes, precisávamos começar as filmagens com um ano de antecedência. Agora, dá para fechar tudo em um mês”. Quase parece um gestor de abatedouro celebrando que dobrou a cadência. A paciência que a criatividade exige vira um defeito nessa novilíngua da eficiência, em que fazer rápido passa a significar fazer melhor.
Ainda segundo o The Wall Street Journal, nada menos que cem pessoas participaram do desenvolvimento deste anúncio, incluindo cinco “especialistas em IA” encarregados de gerar e depois refinar mais de 70 000 sequências de vídeo. Você leu certo: 70 000, sim. Dá até curiosidade de imaginar como eram os descartes. Cem pessoas é mais do que o necessário para fazer um filme - mas, pelo visto, não bastou para entregar algo minimamente decente.
Holidays are Coming é o nome desse spot publicitário deplorável; só que, desta vez, torcemos de verdade para que as festas não cheguem tão rápido. Dá para criticar a Coca-Cola por um monte de coisas (poluição por plásticos, práticas industriais bastante questionáveis, gestão desastrosa de água em países do Sul, etc.), mas ela ao menos tinha, no passado, o mérito de fazer propagandas memoráveis. Muitas vezes lindas e criativas, elas saíam da mão de artistas talentosos como Haddon Sundblom, Bill Backer, Harvey Gabor ou Ridley Scott. Não vamos recitar o refrão do “antes era melhor”, mas é difícil negar que, entre a mão de um ilustrador e a de um prompt engineer, existe um abismo gigantesco. Basta ver as centenas de comentários zombeteiros que o vídeo recebeu no YouTube, mesmo com a Coca-Cola tendo acabado de publicá-lo. Ainda não sabemos o que há dentro da Coca, mas podemos ter certeza de que o espírito de Natal não está mais na fórmula!
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