Três séculos de suposições e teorias por vezes nebulosas acabam de ser derrubados por uma nova leva de pesquisas arqueológicas. A Ilha de Páscoa deixa de ser um terreno fértil para os nossos devaneios ocidentais: alguns dos seus últimos segredos finalmente vieram à tona.
Da fantasia ocidental às novas evidências na Ilha de Páscoa
A mais de 3.700 quilômetros de qualquer território habitado, a Ilha de Páscoa virou mito assim que os primeiros navegadores neerlandeses aportaram ali, em 1722. Quando o explorador Jakob Roggeveen e a sua tripulação encontraram cerca de 1.000 estátuas colossais, erguidas com imponência nas planícies desse pedaço de terra de 164 km², dá para imaginar o espanto. As figuras de pedra de expressão fechada (os Moaí), algumas com mais de 70 toneladas, pareciam apontar para algo “fora do normal”: uma civilização desaparecida, a influência de visitantes extraterrestres, um colapso social após um cataclismo ecológico…
Como construções tão pesadas teriam sido levantadas entre os séculos XIII e XV, se os ocidentais estavam convencidos de que a tecnologia e a organização social necessárias para obras desse tipo só poderiam existir em sociedades imperiais? Foi exatamente esse viés cultural que alimentou hipóteses extravagantes, fazendo parecer que havia um grande mistério em torno da ilha - quando, no fim, não havia. Novas investigações arqueológicas recolocam em evidência a engenhosidade dos Rapanui, o povo indígena responsável pela produção dos Moaí, ao combinar levantamentos de fotogrametria com drones e modelagem 3D.
Rano Raraku: o vulcão-pedreira que deu origem aos Moaí
No coração de Rano Raraku, um vulcão que domina toda a porção leste da ilha, nasceu mais de 95% dos Moaí. Vale lembrar que as primeiras explicações formuladas sobre essas estátuas surgiram num ambiente intelectual marcado pelo etnocentrismo europeu. Exploradores do século XVIII, sem conseguir admitir que uma pequena sociedade insular fosse capaz de produzir esculturas desse porte, concluíram que os Rapanui deveriam ter herdado aqueles monumentos de um povo “superior” ou de uma cultura mais avançada, hoje desaparecida.
Esse preconceito acabou contaminando a própria pesquisa, já que por muito tempo se presumiu que uma elite central comandava a fabricação e o transporte dos Moaí, em um paralelo com o que teria ocorrido com as pirâmides do Egito. Isso apesar de nunca ter surgido qualquer evidência material que sustentasse tal hipótese. Assim, os primeiros estudiosos apenas transplantaram para a ilha modelos administrativos e religiosos das civilizações monumentais do Velho Mundo, certos de que um empreendimento tão hercúleo só poderia existir sob um poder central forte.
Esse olhar distorcido agora é contrariado por análises recentes, realizadas a partir de mais de 11.000 fotografias de Rano Raraku feitas por drones e reunidas em um modelo 3D completo, com precisão centimétrica. Com isso, os arqueólogos revelaram o que o vulcão escondia: cerca de trinta oficinas de produção independentes espalhadas pelas encostas. Ou seja, os clãs trabalhavam para si, e não sob a imposição de um suposto déspota que determinasse a ereção das estátuas.
Os Rapanui formavam, portanto, um conjunto de grupos de linhagem descentralizados, atuando em paralelo. Cada grupo dominava procedimentos próprios, mas seguia um mesmo arcabouço simbólico, capaz de gerar formas padronizadas. O conhecimento técnico circulava entre esses círculos sociais, embora não fosse aplicado de modo idêntico em todos eles: ao todo, os pesquisadores identificaram três técnicas diferentes de escultura.
A reconstrução 3D do vulcão também possibilitou reconhecer 426 Moaí em diferentes etapas de produção dentro da pedreira, além de 341 valas de extração (usadas para separar as estátuas do leito rochoso, onde eram talhadas diretamente nas paredes) e 133 espaços vazios, correspondentes a pontos de onde esculturas finalizadas foram retiradas para serem transportadas pela ilha.
Nesse sentido, Rano Raraku cumpria, para o povo Rapanui, uma função ao mesmo tempo produtiva e social: um espaço de engenharia ritual compartilhado coletivamente pelos diferentes clãs. Com os recursos disponíveis ali, cada grupo podia afirmar a sua presença política e cultural ao esculpir esses gigantes de pedra. Depois, os Moaí eram distribuídos pela ilha para atuar como mediadores entre o mundo humano e as forças ancestrais (aringa ora). Rostos que representavam gerações anteriores, preservados na rocha.
Como os Moaí “caminharam” até seus locais?
Essa é uma questão que, assim como os blocos graníticos das pirâmides egípcias, perseguiu muitos arqueólogos. Afinal, os Rapanui não usavam tração animal nem roda; de que maneira teriam levado estátuas tão pesadas por vários quilômetros, considerando que a maior já catalogada pesava 70 toneladas? Mais uma vez, surgiram inúmeras tentativas de explicação sem jamais apresentar previsões testáveis: trenós sobre troncos, rampas de madeira, trilhos e até a ajuda de viajantes vindos das estrelas.
Os arqueólogos por trás desses novos estudos encontraram uma resposta ao comparar 62 estátuas abandonadas ao longo dos antigos caminhos com aquelas instaladas nas plataformas cerimoniais (ahu). A própria forma dessas esculturas teria sido planejada para permitir o deslocamento com um balanço alternado para a esquerda e para a direita, ao mesmo tempo em que avançavam - como acontece quando se move uma geladeira.
Em 2013, um experimento foi realizado com uma réplica de concreto de 4,35 toneladas (ver vídeo abaixo): ela percorreu 100 metros em 40 minutos, puxada com três cordas por apenas 18 pessoas. Portanto, não se trata de lenda: os Rapanui realmente faziam as estátuas “andar”.
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O viés etnocêntrico e a revisão das interpretações
Se nos perdemos tanto nos estudos sobre essa ilha, que acabou envolta numa névoa de exotismo bastante deslocada, foi porque passamos a tratá-la como um conjunto de “problemas” a resolver. Projetamos ali os nossos preconceitos e uma visão teleológica do progresso, buscando falhas - como se elas pudessem justificar por que uma suposta pequena sociedade insular não teria condições de realizar o que, na verdade, realizou com as próprias mãos. Por quase 300 anos, a arqueologia ocidental insistiu em ler os Moaí pela lente da impossibilidade técnica, convencida de que a criatividade dos Rapanui só poderia derivar de um poder centralizado ou de uma elite coercitiva. As ferramentas intelectuais de que dispúnhamos estavam lascadas - ou, ao menos, não suficientemente afiadas - para conceber que pudesse existir um sistema tecno-ritual radicalmente diferente do europeu. Felizmente, as ciências sociais contemporâneas, munidas de um olhar crítico sobre os seus próprios vieses, começaram a sacudir a poeira do velho livro interpretativo no qual o Ocidente registrou hipóteses frágeis. Essa ilha nunca deveria ter sido um enigma; a única questão que permaneceu tão presente foi a obstinação etnocentrada com que recusamos admitir que uma sociedade muito diferente da nossa também é capaz de mostrar que a monumentalidade pode surgir sem escravidão ou imperialismo.
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