Faz tempo que, desde que concluí a faculdade, eu quase não recorria ao transporte público - no dia a dia, a maioria dos meus deslocamentos era feita de carro ou de moto.
Ainda assim, uma combinação de circunstâncias - como a alta no preço dos combustíveis e o fato de meu carro ter passado um bom período na oficina - acabou me empurrando de volta para a rede de transportes públicos, principalmente no trajeto “casa-trabalho”.
Vale o aviso: ao contrário do que acontece com muita gente em Portugal, eu não venho da periferia de Lisboa. Eu saio de Coruche, uma vila a cerca de 80 km da capital, onde o único transporte público disponível é o ônibus.
Naturalmente, essa virada completa no meu jeito de me locomover exigiu ajustes na rotina. Junto com ganhos claros, também vieram alguns percalços - daqueles que eu não sentiria falta nenhuma.
Ao mesmo tempo, ao retomar o uso do transporte público, pude na prática testar as soluções promovidas na “Semana Europeia da Mobilidade”, que termina hoje e, sobretudo, seguir ao pé da letra o “Dia Europeu sem Carros”, também celebrado hoje.
Os prós…
Por estar fora da região metropolitana de Lisboa, eu não tenho acesso ao passe “Navegante Metropolitano”, que custa 40 euros e permite usar todos os serviços regulares de transporte público de passageiros nos 18 municípios dessa área.
Economia no bolso e menos gastos com o carro
Como alternativa, acabo pagando quase 100 euros pelo passe. É caro, mas, considerando que eu gastava mais ou menos o mesmo valor por semana para encher o tanque do carro, o resultado é uma economia relevante.
Outra vantagem de trocar o carro pelos transportes públicos é poder fazer o que todo mundo gosta de fazer de manhã: dormir um pouco mais. Sério - em um percurso de cerca de 100 km, raramente eu lembro de mais de 15 km.
Além disso, dentro desse “pacote de benefícios”, não dá para ignorar o menor desgaste do meu automóvel (de 1000 km semanais, ele passou a rodar só 150 km, apenas para me levar e buscar no terminal rodoviário). E, claro, também deixei de pagar estacionamento e de viver preocupado com multas da EMEL ou outras por excesso de velocidade.
… e os contras
Se por um lado há várias vantagens em usar os transportes públicos, por outro é impossível dizer que elas não vêm acompanhadas de alguns desafios.
Horários apertados e rotina virada do avesso
O principal deles, de longe, é a questão dos horários. Para conseguir usar os transportes e chegar no horário à redação da Razão Automóvel, eu não só precisei mudar meu expediente (passei a entrar e sair mais cedo), como também comecei a acordar de madrugada, bem antes do sol aparecer.
Depois vem o trânsito. No carro, aplicativos como Waze ou até o Google Maps ajudam a escapar de engarrafamentos; no ônibus, não dá para simplesmente pedir ao motorista que altere o caminho. E a irritação cresce quando os minutos passam e a sensação é de que o atraso é inevitável.
Somando a isso as faixas de ônibus ocupadas por quem não deveria estar ali e trajetos que até motoristas e passageiros mais habituais consideram mal ajustados, um deslocamento que de carro leva, em média, 1h20 acaba se estendendo para algo perto de três horas.
No fim das contas, não dá para dizer que uma rotina (quase) sem automóvel seja uma utopia completa. Mas ela exige uma adaptação grande do dia a dia, uma boa dose de paciência e até um pouco de sorte, para que não aconteça nenhuma falha na rede de transportes que nos faça perder o ônibus de volta para casa.
Só não me peçam para abrir mão do carro nos fins de semana. Durante a semana, sozinho, eu ainda consigo substituí-lo pelos transportes públicos; já nos fins de semana, a menor frequência de ônibus e a necessidade de viajar com uma criança deixam claro que o automóvel continua tendo um papel importante - e, em alguns momentos, realmente insubstituível - na nossa mobilidade.
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