O assunto divide o setor: tornar obrigatória - ou não - a adoção exclusiva de aguardente regional na elaboração do Vinho do Porto.
Mais do que a resposta em si, o que torna essa pauta relevante é ver o Douro voltar ao centro da conversa política nacional.
Aguardente regional e Vinho do Porto: além de uma solução imediata
Seja qual for o desfecho, seria desejável que esse debate produzisse algo mais consistente: um rumo estruturado para uma região que se aproxima perigosamente do limite da própria resistência - justamente o traço que a define.
A crise não começou agora. Ela é fruto de décadas de imobilismo e da falta de um controle efetivo, que abriram espaço para desigualdades profundas dentro do setor. Os produtores seguem espremidos entre custos elevados de produção e os preços baixos pagos pelas uvas. Não há atividade econômica sustentável quando quem produz entrega sem saber quanto vai receber.
Nesse contexto, a exclusividade da aguardente regional poderia, em tese, aparecer como uma saída. Ainda assim, uma mudança dessa dimensão só faz sentido dentro de um plano de médio prazo e numa lógica de valorização e aproveitamento dos excedentes vínicos, com adaptação gradual e capacidade instalada que evitem criar novos desequilíbrios econômicos - e não apresentada como resposta única, imediata ou isolada para resolver uma crise estrutural.
A crise do Douro é mais ampla do que a discussão sobre aguardente
Por isso, reduzir o tema à aguardente seria empobrecer o diagnóstico. O problema do Douro é bem maior. Ele pede planejamento, regras transparentes para os agentes econômicos e uma reestruturação do modelo regulatório do IVDP.
Planejamento, regras e a necessidade de reformar o IVDP
Mais do que ações pontuais, o Douro precisa voltar a se confiar: é necessário um pacto estratégico real, de médio prazo, entre produção e comércio. Um acordo desse tipo permitiria programar quantitativos, assegurar renda digna aos agricultores e reposicionar a região diante do mercado atual.
O Douro para além do cartão-postal turístico
O Douro não pode seguir sendo apenas um cartão-postal admirado por quem o visita, enquanto quem vive dele continua apenas sobrevivendo, com dificuldade. Trata-se de uma região que contribui de forma decisiva para as exportações portuguesas de vinho, além de ser um patrimônio único do país. O futuro do Douro diz respeito a todos os portugueses.
A discussão no Parlamento não pode virar só mais um episódio de circunstância populista; precisa marcar o começo de uma estratégia nacional para salvar o Douro e todos os que o construíram, antes que se chegue ao ponto de não retorno.
Como escrevia António Arnaut: "Os meus heróis verdadeiros não vêm na mesma história, não têm monumentos nas praças domingueiras (...) são os construtores do meu país à espera..."
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