Navios de cruzeiro e saúde pública
Cruzeiros costumam ser anunciados como férias flutuantes, mas também ajudam a entender como funciona a saúde pública.
Um navio de cruzeiro é um ambiente planejado com cuidado para que muitas pessoas durmam, comam, descansem e circulem pelos mesmos espaços compartilhados durante vários dias.
Por isso, ele deixa claro como uma doença pode se espalhar com facilidade quando muita gente fica reunida em um único sistema interligado.
Dá para imaginar um navio de cruzeiro como uma cidade temporária no mar.
Há restaurantes, teatros, elevadores, cabines, cozinhas, sistemas de água e áreas internas de convivência. Isso é ótimo para a praticidade, mas significa que, quando uma infecção entra a bordo, ela pode atravessar o navio de maneiras difíceis de conter.
Por que o ambiente do navio acelera a transmissão
O caso do Diamond Princess é talvez o exemplo mais conhecido. Durante o surto de COVID em 2020, 619 passageiros e membros da tripulação testaram positivo para a doença.
Pesquisadores concluíram que as condições do navio facilitaram a disseminação do novo coronavírus. As modelagens indicaram que medidas de saúde pública, como isolamento e quarentena, evitaram muitos outros casos - e também mostraram que uma resposta mais cedo teria reduzido ainda mais o surto.
O serviço de alimentação pesa muito nesse risco. Refeições em estilo bufê, utensílios compartilhados e muitas pessoas tocando nas mesmas superfícies podem tornar mais fácil a transmissão de viroses gastrointestinais.
Se alguém estiver infectado, mas ainda não se sentir mal, essa pessoa pode contaminar comida ou superfícies antes de perceber que está doente.
O próprio desenho do navio também agrava a situação. As pessoas passam tempo juntas em salões de jantar, bares, elevadores, corredores, teatros e áreas de bem-estar.
A tripulação também mora e trabalha no mesmo ambiente, muitas vezes em alojamentos compartilhados; assim, a doença pode circular pelo navio de passageiro para passageiro ou entre passageiros e tripulantes.
A ventilação é outro ponto central. Navios de cruzeiro não são caixas totalmente fechadas, mas dependem bastante de espaços internos onde as pessoas permanecem por longos períodos.
Estudos sobre a qualidade do ar em navios de cruzeiro mostraram que, em locais cheios e fechados - como cabines, restaurantes e áreas de entretenimento - a disseminação de doenças pode ser mais fácil se o sistema de ventilação não for adequado.
Medidas como circulação suficiente de ar externo, filtros especializados e tecnologias de purificação do ar contribuem para manter os passageiros mais protegidos.
Doenças mais associadas a cruzeiros
O norovírus (a chamada “virose do vômito”) é a infecção mais ligada a navios de cruzeiro.
Em uma revisão de estudos já publicados, pesquisadores encontraram 127 relatos de surtos de norovírus em navios de cruzeiro, muitos associados a alimentos contaminados, superfícies contaminadas e transmissão de pessoa para pessoa.
Um relatório mais recente dos EUA também mostrou que o norovírus pode passar muito rapidamente de uma pessoa para outra em um navio de cruzeiro.
Isso ajuda a entender por que embarcações como Celebrity Mercury, Explorer of the Seas e Carnival Triumph se tornaram nomes conhecidos em relatórios de surtos. Não havia nada de especialmente incomum nelas; eram, simplesmente, cenários em que refeições compartilhadas, contato próximo e circulação frequente por áreas comuns permitiram que a infecção se espalhasse depressa.
A doença dos legionários (uma doença pulmonar grave causada por bactérias) representa um risco diferente. Em geral, ela não se transmite diretamente de uma pessoa para outra. Em vez disso, a infecção pode ocorrer ao respirar gotículas muito pequenas vindas de sistemas de água contaminados, banheiras de hidromassagem ou chuveiros.
Um surto bem conhecido entre passageiros de cruzeiro foi associado a uma banheira de hidromassagem, e relatos recentes dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA descreveram outros surtos de doença dos legionários associados a cruzeiros, ligados aos sistemas de água do navio.
A idade também faz diferença.
Cruzeiros são especialmente populares entre pessoas mais velhas, e muitos passageiros têm condições crônicas de saúde que tornam as infecções mais graves. Uma virose gastrointestinal em um cruzeiro pode levar à desidratação, e uma infecção respiratória pode evoluir para pneumonia ou exigir atendimento hospitalar.
Os navios de cruzeiro contam com serviços médicos, mas eles são limitados quando comparados a hospitais em terra. Essas estruturas existem para primeiros socorros, tratamento básico e cuidado de curto prazo - não para administrar um surto acelerado em grande escala.
Por isso, a saúde a bordo depende tanto de notificação precoce, isolamento rápido e práticas rigorosas de limpeza.
Outras infecções, como vírus respiratórios (incluindo influenza), podem se espalhar nesses mesmos ambientes internos e cheios; e viroses gastrointestinais podem circular por meio de alimentos, mãos e superfícies compartilhadas.
COVID e gripe se aproveitam do ar em espaços fechados e das aglomerações. O norovírus se dá bem com bufês e superfícies. Já a doença dos legionários mira sistemas de água, que os navios não conseguem esterilizar com facilidade. Surtos de hantavírus (uma doença respiratória grave transmitida por roedores) em navios são raros.
Ainda assim, como mostram as notícias recentes sobre as mortes no MV Hondius, germes em ambientes apertados encontram muito mais facilidade para se espalhar.
Como reduzir seu risco
Como epidemiologista, já acompanhei muitos surtos em hospitais, escolas e até em voos.
Para quem vai viajar, a melhor proteção começa antes do embarque. É prudente verificar se a companhia de cruzeiro tem políticas claras de notificação de doença, limpeza e isolamento.
Garanta que suas vacinas de rotina estejam em dia. E, para pessoas idosas, gestantes e qualquer um com problemas de saúde, vale conversar com seu médico antes de viajar.
Também confirme se o seu seguro-viagem cobre interrupções relacionadas a doença.
Já a bordo, lavar as mãos com água e sabão é a medida mais útil para evitar viroses gastrointestinais como o norovírus. O álcool em gel ajuda, mas não substitui água e sabão.
Se você começar a se sentir mal, o mais seguro é evitar bufês e áreas compartilhadas lotadas e relatar os sintomas cedo, em vez de tentar seguir a viagem como se nada tivesse acontecido.
As companhias de cruzeiro melhoraram seus sistemas de higiene e resposta a surtos ao longo do tempo, e muitas viagens acontecem sem incidentes.
Mas a estrutura básica do cruzeiro continua impondo o mesmo desafio: muitas pessoas compartilhando as mesmas refeições, o mesmo ar, os mesmos sistemas de água e os mesmos espaços comuns.
É por isso que os surtos continuam reaparecendo - e por que navios de cruzeiro seguem sendo um lembrete útil de que a saúde pública é moldada tanto pelo desenho dos ambientes quanto pelos germes.
Vikram Niranjan, Professor Assistente de Saúde Pública, Escola de Medicina, Instituto de Pesquisa em Saúde, Universidade de Limerick
Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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