Pesquisadores identificaram duas cavidades preenchidas por ar escondidas atrás da face leste da Pirâmide de Menkaure, no Egito, oferecendo a primeira evidência física direta de que esse lado pode ocultar uma segunda entrada.
O fato de elas estarem posicionadas logo atrás de um trecho de pedra com polimento incomum faz com que uma antiga “esquisitice” arquitetónica passe a ser vista não como mera variação do revestimento externo, mas como um ponto específico associado a uma estrutura interna.
Escaneando a Pirâmide de Menkaure
Na face leste, o estudo se concentrou num painel de granito polido com cerca de 4,0 m de altura por 6,1 m de largura.
Ao analisar esse trecho a partir do exterior, Christian U. Grosse, professor de ensaios não destrutivos na Universidade Técnica de Munique (TUM), relacionou o acabamento polido com a presença de espaços ocultos.
Esse tipo de investigação examina estruturas sem abri-las ou cortar o material, mantendo as pedras externas da pirâmide preservadas.
As medições não revelaram uma passagem aberta, mas transformaram, pela primeira vez naquela face, uma suspeita baseada no aspecto visual em evidência que pode ser testada.
Por que essa face
Uma área bem definida de granito polido na face leste marca exatamente a zona onde as cavidades ocultas aparecem atrás do revestimento.
Ao investigar esse detalhe, a equipa vinculou o acabamento refinado a espaços abaixo da superfície ao registar anomalias alinhadas diretamente por trás dele.
Esse alinhamento lembra o tratamento de superfície observado na entrada conhecida ao norte da pirâmide, reforçando a associação entre polimento e possíveis pontos de acesso encobertos.
Com isso, a questão deixa de ser “existe algo atrás da pedra?” e passa a ser “como essas cavidades estão organizadas e se elas se prolongam até formar um corredor?”.
Métodos sem danos
Para verificar o indício, os pesquisadores aplicaram tomografia de resistividade elétrica, um tipo de varredura que acompanha como a corrente elétrica se comporta no interior da rocha.
Como o ar resiste à passagem de eletricidade de forma diferente do granito ou do calcário, vazios tendem a surgir nas imagens como zonas de resistência anormal.
Em seguida, o radar de penetração no solo, que emite ondas de rádio para dentro do material, indicou onde a pedra dava lugar ao ar.
O som serviu como outra confirmação por meio de testes ultrassónicos, que usam pulsos de alta frequência e refletem de modo mais intenso nas fronteiras entre pedra e ar.
Espaços ocultos na Pirâmide de Menkaure
Ao combinar os resultados, as imagens posicionaram a anomalia maior a cerca de 1,4 m para dentro, com dimensão aproximada de 1,52 m por 1,01 m.
A menor começava por volta de 1,13 m de profundidade e media aproximadamente 0,91 m por 0,70 m.
Os dois sinais apareceram atrás do granito polido, e não de forma aleatória ao longo da área total examinada.
O tamanho, por si só, não define a função; ainda assim, a localização torna mais convincente a hipótese de uma entrada oculta exatamente onde o acabamento já levantava dúvidas.
O que as varreduras mostraram
Ao reunir os resultados por fusão de imagens - um procedimento que sobrepõe e cruza diferentes tipos de registo - foi possível comparar as mesmas feições escondidas.
O radar e o ultrassom ajudaram a delinear limites, enquanto as medições elétricas apontaram volumes com comportamento distinto da pedra ao redor; assim, cada técnica esclareceu uma parte do problema.
Quando os sinais de instrumentos diferentes coincidiam, aumentava a robustez da interpretação de que se tratava de vazios reais preenchidos por ar.
Perto da segunda anomalia, persistiram pequenos desvios de posição entre métodos, motivo pelo qual a equipa evitou afirmar que já havia um corredor mapeado.
Lições de Khufu
Uma postura semelhante de cautela foi útil na Pirâmide de Khufu, a Grande Pirâmide de Gizé, depois que varreduras apontaram outra estrutura escondida.
Em 2023, múons de raios cósmicos - partículas provenientes do espaço capazes de atravessar pedra - ajudaram a caracterizar ali um corredor de cerca de 9,1 m.
Mais tarde, trabalhos de fusão de imagens voltaram a examinar esse corredor com radar, ultrassom e medições elétricas, refinando a forma sem necessidade de perfurar.
A Pirâmide de Menkaure segue agora esse mesmo padrão prudente: afirmações mais fortes ficam para um novo teste igualmente inofensivo antes de se consolidarem como fato público.
Por que o ar importa
Em estruturas de pedra, o ar é importante porque altera os caminhos habituais do som, da eletricidade e das ondas de radar.
Um vazio verdadeiro cria um contraste mais marcante do que uma fissura, já que o espaço vazio se comporta de maneira muito diferente de um material de construção denso.
Ainda assim, paredes antigas têm juntas, blocos desgastados e materiais de preenchimento, elementos que podem confundir a distinção entre frestas e câmaras.
Essa incerteza torna o resultado estimulante, mas ainda não definitivo - sobretudo porque as cavidades podem não avançar muito para o interior nem se ligar a uma passagem maior.
Uma afirmação com cautela
A prudência da equipa também foi crucial por causa do tipo de rocha: o granito dificultou o uso de elétrodos e reduziu a qualidade dos sinais de radar e de som.
Para manter a conclusão bem fundamentada, simulações computacionais - testes que comparam formas ocultas possíveis - avaliaram se juntas, granito muito denso ou bolsas de ar poderiam produzir os mesmos sinais.
“A hipótese de outra entrada é muito plausível, e os nossos resultados nos levam um grande passo mais perto de confirmá-la”, disse Grosse.
Cabe aos egiptólogos - especialistas no Egito Antigo - avaliar se a arquitetura é compatível com as evidências obtidas nas varreduras.
Mais estudos sobre a Pirâmide de Menkaure
A pirâmide de Menkaure é a menor das três principais pirâmides do Planalto de Gizé, o célebre conjunto monumental perto do Cairo.
A entrada conhecida fica no lado norte, o que faz a face leste polida chamar ainda mais atenção.
Trabalhos futuros podem incorporar termografia, medições de pequenas variações de gravidade e novas varreduras com múons para verificar até onde as cavidades se estendem e se terminam como bolsões curtos.
Esse ritmo cuidadoso protege o monumento, ao mesmo tempo em que a tecnologia moderna reduz a incerteza sobre onde arqueólogos podem procurar a seguir.
As varreduras na Pirâmide de Menkaure transformaram um trecho estranho de pedra polida num alvo bem delimitado, com dois espaços preenchidos por ar medidos atrás da face leste.
Agora será necessário demonstrar se são vazios pequenos ou parte de uma entrada, mantendo a pirâmide intacta.
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