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Focas-monge do Mediterrâneo em Formicula passam a dormir em cavernas de bolha

Foca nadando em tanque com iluminação natural e corais no teto rochoso do aquário.

Focas-monge do Mediterrâneo antes descansavam à vista nas praias, mas hoje se escondem em grutas marinhas para evitar a presença humana.

Um novo estudo realizado na Grécia mostrou que algumas focas passaram a dormir dentro de câmaras submersas e ocultas, com bolsas de ar aprisionado, em vez de repousar em terra seca.

A descoberta evidencia como a atividade humana pode estar a alterar o comportamento desses animais ameaçados e pode mudar a forma como os cientistas planeiam a sua proteção.

Focas-monge do Mediterrâneo

A foca-monge do Mediterrâneo, Monachus monachus, é um dos mamíferos marinhos mais raros do planeta. Atualmente, está classificada como Vulnerável na Lista Vermelha da IUCN.

Relatos históricos descrevem um animal bem diferente daquele observado hoje pelos investigadores. No passado, focas-monge reuniam-se em grupos em praias abertas e em costas rochosas por todo o Mediterrâneo.

Esse padrão de comportamento praticamente desapareceu.

A atividade humana afasta as focas-monge

Séculos de caça, conflitos com a pesca e perturbações causadas por pessoas empurraram a espécie para longe das áreas costeiras mais expostas.

Hoje, as focas-monge evitam praias movimentadas e dão preferência a grutas isoladas, onde conseguem descansar sem interrupções.

Ao longo de anos, cientistas vêm a estudar esses abrigos escondidos. A maioria das grutas usadas por focas-monge apresenta características semelhantes: entradas submersas, poças no interior e praias secas dentro da gruta, onde as focas conseguem sair da água.

Por isso, os investigadores acreditavam que essas zonas secas eram indispensáveis.

Câmaras em Formicula

Em 2020, investigadores do Instituto de Pesquisa Tethys e de organizações parceiras instalaram um sistema autônomo de câmaras dentro de uma gruta de foca-monge em Formicula, um pequeno ilhéu grego desabitado no Mar Jônico.

A área fica dentro de uma zona protegida da rede Natura 2000. O objetivo era direto: compreender como as focas utilizavam a gruta durante períodos de descanso e de reprodução.

Descoberta de uma câmara escondida

Durante a exploração do local, a equipa encontrou algo inesperado. Um corredor estreito e submerso desviava-se da gruta principal e conduzia a uma segunda câmara, escondida.

Ao contrário da gruta principal, esse espaço não tinha praia nem qualquer plataforma seca. Havia apenas água do mar e uma bolsa de ar aprisionado perto do teto.

“Não sabíamos exatamente aonde levaria”, disse Joan Gonzalvo, biólogo e diretor do Projeto Golfinhos do Jônico, do Instituto de Pesquisa Tethys.

A câmara tinha cerca de 90 m² (970 pés²), com aproximadamente 22 m² (240 pés²) de ar respirável retido acima da água.

Cavernas de bolha mudam suposições

Essas câmaras cheias de ar são conhecidas como cavernas de bolha. Antes, os cientistas supunham que as focas-monge as usavam apenas por instantes, enquanto atravessavam passagens submersas.

As imagens de Formicula contaram outra história.

Os investigadores colocaram câmaras à prova d’água na entrada da caverna de bolha. O sistema fotografava a câmara a cada dez minutos e mudava para gravação contínua sempre que surgiam focas.

Focas-monge escolhem refúgio submerso

Ao longo de 141 dias de monitorização, as focas apareceram na gruta principal em 30 dias. Já na caverna de bolha, surgiram em 119 dias.

Isso significa que elas usaram a câmara submersa em 84% do tempo.

Mais surpreendente ainda: muitas vezes, os animais ignoravam a gruta próxima com uma praia adequada e, em vez disso, escolhiam o esconderijo submerso e mais escuro.

Em alguns momentos, uma única foca descansava ali. Em outros, três focas partilhavam a câmara. Elas flutuavam, deixavam-se levar e dormiam.

Focas dormem abaixo da superfície

As gravações registaram um tipo de repouso pouco comum. Algumas focas boiavam perto da superfície em posições sonolentas, na horizontal ou na vertical. Outras permaneciam imóveis no fundo rochoso.

Uma imagem mostrou uma fêmea a dormir de lado, com as narinas submersas. Outra revelou um macho com cicatrizes a cochilar tranquilamente sob a bolsa de ar aprisionado.

Os cientistas já sabiam que a foca-monge consegue dormir na água. Um comportamento semelhante já tinha sido observado na superfície do mar e ao longo do fundo marinho. Mas o estudo em Formicula trouxe um elemento novo.

As focas não estavam apenas a descansar durante um deslocamento. Elas pareciam usar a caverna de bolha como um local regular de sono.

Esse resultado contraria a ideia anterior de que a foca-monge precisa de superfícies secas para descansar rotineiramente.

Focas evitam praias secas

Para a maioria das espécies de foca, a terra seca continua a ser o melhor local de descanso. Sair da água para rochas ou praias ajuda a conservar o calor corporal e a secar o pelo. A foca-monge-do-Havaí, parente próxima, ainda mantém esse comportamento.

Então, por que as focas-monge do Mediterrâneo rejeitariam uma praia seca e optariam por uma câmara alagada?

Os investigadores consideram que a explicação está no turismo.

Turismo empurra as focas para mais fundo

Formicula torna-se movimentada durante a temporada de turismo no verão. Barcos e banhistas circulam com frequência nas águas próximas. Embora a gruta principal seja parcialmente escondida, a sua entrada continua acessível a partir da superfície.

Há relatos de turistas que se aproximaram de focas-monge e até entraram em grutas de reprodução para tirar fotografias ou observar mais de perto.

Grutas escondidas oferecem segurança

Para uma espécie moldada por séculos de perturbação, esses encontros podem ser percebidos como ameaça.

A caverna de bolha oferece algo mais seguro. A sua entrada fica a 1,5 m (5 pés) abaixo da superfície e só pode ser alcançada por passagens estreitas debaixo d’água.

Banho casual, natação ou mergulho com snorkel quase nunca levariam alguém a encontrá-la. Para as focas, a câmara garante privacidade.

“Com mamíferos marinhos, estamos sempre a tentar encontrar maneiras de recolher dados sobre o seu comportamento sem alterar o seu comportamento”, disse Frances Gulland, presidente da Comissão de Mamíferos Marinhos dos EUA.

“Isso não é algo fácil de fazer.”

Planos de conservação podem mudar

A descoberta pode redesenhar o planeamento de conservação em todo o Mediterrâneo.

Até aqui, estudos de habitat frequentemente classificavam grutas sem praias internas como inadequadas para focas-monge. Assumia-se que áreas secas para “sair da água” eram necessárias para o descanso e para a sobrevivência. As imagens de Formicula sugerem o contrário.

Cavernas de bolha podem funcionar como refúgios valiosos, sobretudo onde a pressão turística é elevada. Os investigadores defendem agora que mapas de conservação incluam essas câmaras ocultas ao identificar habitats a proteger.

Grutas ignoradas ganham relevância

“Faz sentido inventariar esse tipo de habitat”, disse o biólogo marinho Jason Baker.

Os resultados também levantam questões preocupantes. Algumas grutas que parecem ideais para focas-monge estão a ser abandonadas devido à presença humana constante.

Se as focas estão a recuar para espaços cada vez mais inacessíveis, os esforços de conservação talvez precisem rever o que é considerado habitat utilizável.

A proteção avança lentamente

Em dezembro de 2024, o governo grego introduziu proteções mais rigorosas em torno de Formicula, incluindo uma zona de não entrada perto das grutas.

Os investigadores receberam bem a medida. Ainda assim, o estudo indica que muitos habitats negligenciados pelo Mediterrâneo podem seguir sem proteção.

As cavernas de bolha não substituem totalmente as grutas de reprodução. Fêmeas ainda precisam de praias seguras dentro de grutas para criar filhotes. Porém, as câmaras submersas podem oferecer mais uma camada importante de proteção durante o resto do ano.

Focas-monge adaptam-se aos humanos

As focas de Formicula mostram o quanto a atividade humana pode moldar o comportamento animal. Ao longo de gerações, as focas-monge do Mediterrâneo passaram de áreas costeiras abertas para grutas isoladas e, agora, possivelmente para câmaras submersas escondidas na rocha.

A cena é marcante: um dos mamíferos marinhos mais raros do mundo a dormir debaixo d’água, em bolsões escuros de ar preso, porque esses espaços parecem mais seguros do que o mundo acima.

As focas já se adaptaram. O próximo desafio é humano. As políticas de conservação agora precisam acompanhar aquilo que os próprios animais já descobriram.


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