Neste momento, a estratégia global para salvar a biodiversidade - incluindo a proteção da vida selvagem da África - está amarrada a um único número.
Governos se comprometeram a proteger 30% das terras e dos mares do planeta até 2030. A ideia por trás disso é simples: se uma porção suficiente do território estiver protegida, as espécies que vivem ali também estarão.
Um novo comentário contesta essa premissa. O autor, após décadas de trabalho de campo em diferentes regiões africanas, sustenta que o plano funciona melhor no papel do que na realidade.
E, à medida que a próxima onda de investimentos em conservação é direcionada, a vida selvagem pode não estar onde a estratégia imagina.
Vida além das cercas
Essa avaliação é de Luca Luiselli, ecólogo tropical do Instituto para Desenvolvimento, Ecologia, Conservação e Cooperação (IDECC), em Roma.
Em suas pesquisas na África Ocidental, o mesmo padrão aparece repetidamente. Para ele, áreas protegidas são indispensáveis, mas estão longe de bastar para a África.
As reservas ocupam apenas uma fração estreita do continente, e muitos dos animais que elas deveriam resguardar existem em números maiores fora de seus limites. O território além das cercas não é um vazio “selvagem”.
Trata-se de áreas agrícolas, campos de pastoreio, florestas em regeneração e bosques mantidos por comunidades há gerações. São paisagens em que pessoas e animais compartilham o espaço há muito tempo.
Fora dos parques
Basta olhar para os primatas. Nas florestas de Camarões, várias espécies de macacos ameaçadas se agarram a trechos de mata sem qualquer status de proteção. Elas persistem em manchas que os mapas de conservação deixam passar.
Há também o hipopótamo-pigmeu, um parente menor e mais difícil de observar do hipopótamo-comum. Em Serra Leoa, cerca de 4 de 5 registros de vestígios do animal aparecem fora de qualquer reserva.
Isso não é casualidade. Mesmo reservas bem estudadas deixam lacunas. Um estudo sobre morcegos africanos encontrou mais de duas dezenas de espécies ausentes de todos os parques avaliados, e várias delas estavam ameaçadas.
No papel não basta
Parte do problema é que muitas reservas africanas existem sobretudo “no papel”. Elas são pequenas demais e recebem pouco financiamento para cumprir a função. Em bases de dados, parecem protegidas; no terreno, nem sempre.
Há ainda um custo humano. Ao traçar limites rígidos sobre a terra, comunidades foram afastadas de florestas e fontes de água das quais dependiam.
Com isso, vizinhos passam a se tornar adversários da vida selvagem com a qual antes conviviam, aumentando o atrito.
Uma análise de reservas privadas na África concluiu que elas elevaram a fauna e o turismo, mas deixaram as comunidades do entorno se sentindo menos seguras.
Hectares, não animais
Tudo isso coloca um grande objetivo global sob uma luz desconfortável. A meta 30×30 promete proteger quase um terço das terras e dos mares do planeta até 2030. O sucesso, em grande medida, é medido pela área coberta.
A preocupação de Luiselli é que esse desenho premie quantidade em vez de resultado. Alcança-se o número, e ainda assim as espécies dentro dessas áreas podem desaparecer silenciosamente.
Hoje, a África protege menos de 1/5 de suas terras - bem abaixo do necessário para cumprir a meta - segundo uma revisão. A resposta não é abrir mão dos parques.
Luiselli é direto ao afirmar que as reservas continuam realizando um trabalho essencial, sobretudo para animais que não conseguem sobreviver perto de pessoas.
O ponto é que elas nunca seriam a solução completa em um continente tão grande e tão ocupado.
Convivendo com a vida selvagem
É aqui que entram as paisagens produtivas e habitadas - em especial áreas agrícolas, pastagens e florestas com moradores - onde pessoas e vida selvagem coexistem.
Moldadas por séculos de convivência entre gente e animais, essas paisagens frequentemente sustentam uma fauna mais diversa do que reservas próximas. Um dos motivos é o deslocamento.
Pastores conduzindo rebanhos por regiões secas ajudam a manter corredores abertos, permitindo que animais circulem entre habitats e acompanhem as chuvas sazonais.
Reservas cercadas por estradas e fazendas podem interromper esse movimento. E essa flexibilidade tende a ser ainda mais importante com o aquecimento do clima.
Paisagens que permitem a mobilidade das espécies podem suportar melhor secas e calor do que um trecho isolado por cercas. Elas oferecem um destino quando uma reserva se torna hostil.
Protegendo a vida selvagem
Pesquisadores há tempos reconhecem que reservas têm limites e que a fauna transborda suas bordas. O que muda aqui é a afirmação em escala continental: a terra fora dos parques precisa estar no centro do plano.
A conclusão não é que cercas falham, e sim que elas sempre foram uma ferramenta pequena demais para a tarefa. Na visão apresentada, a maioria das espécies selvagens da África sobrevive em áreas sem proteção formal.
O futuro desses animais passa por lavouras, pastagens e vilas. Isso redefine como uma conservação adequada pode se parecer.
Direcionando recursos para outros lugares
Recursos hoje destinados a ampliar limites de parques podem gerar benefícios maiores se aplicados em outras frentes.
Eles podem assegurar direitos territoriais de comunidades, financiar conservâncias geridas por vilas e manter corredores de migração desobstruídos.
Para formuladores de políticas mirando 2030, a mensagem é dura: atingir um número de cobertura é a parte mais fácil.
Manter espécies vivas tanto dentro de áreas protegidas quanto no restante da paisagem é o teste mais difícil. É esse teste que determina se a África continuará com sua vida selvagem.
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