Geólogos há décadas tentam entender o “desaparecimento” do Rio Colorado.
Entre cerca de 11 e 6 milhões de anos atrás - justamente o intervalo em que o Grande Cânion estava ganhando forma - o trecho superior do rio quase não deixa marcas registradas nas rochas. É como se ele simplesmente sumisse.
Para onde essa água foi é tema de disputa desde os anos 1930, e as explicações mais populares nunca se firmaram por completo.
Um estudo recente reúne, até aqui, o conjunto mais convincente de evidências a favor de uma hipótese: o rio teria se acumulado em um enorme lago a leste e, quando esse lago transbordou, a água passou a entalhar o percurso que se tornaria o cânion.
Um mistério de longa data
A discussão sobre a própria origem do Grande Cânion remonta à primeira travessia de John Wesley Powell, em 1869.
Há consenso de que foi o Rio Colorado que escavou o cânion. O ponto que permanece sem resposta definitiva é como o rio chegou até ali.
A idade do cânion também virou motivo de controvérsia. Uma análise situou o entalhe nos últimos 6 milhões de anos; outras defenderam que algumas partes teriam se formado dezenas de milhões de anos antes.
Desde os anos 1930, uma explicação aparece e reaparece no debate. Conhecida como transbordamento de lago, ela propõe que um grande lago ocupou as terras altas a leste do cânion, subiu até superar uma barreira natural e, ao extravasar, inundou as áreas mais baixas a oeste.
Em busca de um lago perdido
Do lago em si, quase nada restou. Os geólogos o chamam de lago Bidahochi, e ele se espalhava pelo norte do Arizona, a leste do Grande Cânion, em uma área hoje majoritariamente dentro da Nação Navajo.
Com tão poucos vestígios, detalhes essenciais ficaram fora de alcance por muito tempo - qual era seu tamanho, o que o alimentava e por que ele secou.
Trata-se de um corpo d’água com pouquíssimo rastro documental.
John He, geólogo da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), decidiu procurar onde algum registro ainda poderia estar preservado: no arenito do antigo fundo do lago.
Pistas no arenito
Presos nesse arenito havia zircões - cristais minerais resistentes, capazes de sobreviver a quase tudo o que um rio impõe. Cada um carrega um registro químico da rocha em que se formou originalmente.
A equipe coletou amostras em 19 locais e datou milhares de cristais, medindo como o urânio aprisionado em cada um deles se transformou em chumbo ao longo do tempo.
Camadas de cinzas vulcânicas intercaladas nas rochas ajudaram a atribuir idade a cada amostra.
A pesquisa não começou como uma investigação sobre o cânion. Ao analisar o antigo leito do lago, He identificou zircões que coincidiam com os sedimentos típicos do Rio Colorado.
Essa constatação o levou ao Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), onde o geólogo Ryan Crow também perseguia a mesma pergunta.
Os primeiros sinais de um rio
Os grãos de areia revelaram uma sequência coerente. Camada após camada, as idades dos zircões permanecem estáveis até cerca de 6,6 milhões de anos atrás. A partir daí, quase de uma vez, elas mudam e passam a coincidir com o padrão do Rio Colorado. Ao mesmo tempo, a chegada de areia ao local se intensifica.
A origem desse material estava rio acima, no que hoje são Utah e Colorado.
Pesquisas anteriores já tinham rastreado a assinatura sedimentar do Rio Colorado abaixo do Grande Cânion até pelo menos 5 milhões de anos atrás. O que faltava era saber quando esse sinal apareceu pela primeira vez nessa bacia.
“Nosso novo conjunto de evidências mostra que ele se acumulou logo a leste do Grande Cânion, alimentando um ecossistema vibrante”, disse He, ao explicar que o Rio Colorado já corria até ali e se reunia nesse lago.
Forças que construíram o rio
Um lago que continua enchendo, em algum momento, precisa extravasar. O acúmulo de areia ficou alto o bastante para que a equipe considere que o nível d’água pudesse ter subido acima do soerguimento de Kaibab - uma ampla abóbada de rocha entre a bacia e o cânion.
Ao superar essa borda, a água teria escoado para oeste pelo trajeto que viria a ser o do cânion.
Cerca de 2 milhões de anos depois, o sistema teria alcançado o mar, conectando as Montanhas Rochosas ao Pacífico por meio do Golfo da Califórnia.
É provável que vários processos tenham atuado em conjunto - o transbordamento do lago, o aprofundamento gradual do leito rochoso pelo rio, a abertura de caminhos subterrâneos pela água e o soerguimento e inclinação do terreno. Nada disso teria ocorrido de uma só vez.
Muitas perguntas ainda permanecem
Nem todos os geólogos estão convencidos pela hipótese. Eles concordam que os grãos indicam que o Rio Colorado alimentou o lago, mas não que o transbordamento tenha sido o responsável por esculpir o Grande Cânion.
Rebecca Flowers, geóloga que não integra a equipe, considera a interpretação plausível, embora ainda deixe espaço para outras rotas.
A ideia de transbordamento já foi contestada antes. Um artigo de mais de uma década atrás argumentou que o lago nunca teria atingido profundidade suficiente para ultrapassar o divisor.
Outras possibilidades seguem em aberto, como a água dissolvendo rochas no subsolo ou um curso d’água menor erodindo aos poucos no sentido montante.
Até o caminho anterior do rio continua nebuloso; não se sabe por onde corria o alto Rio Colorado antes de chegar a essa bacia.
Ainda assim, o apoio à leitura do lago cresce. Matthew Heizler, que antes duvidava dessa interpretação, agora relata evidências conectando as areias da bacia ao rio.
Uma história mais nítida está surgindo
Mesmo deixando de lado as questões em aberto, sobra algo firme. Até aqui, ninguém conseguia apontar quando o Rio Colorado alcançou a região do cânion. Agora existe uma data.
Por volta de 6,6 milhões de anos atrás, o rio já enchia aquele lago. E, 2 milhões de anos depois, ele chegou ao mar.
“Está claro que esse lago precisou ter desempenhado algum papel na formação do cânion”, disse Crow.
A origem do sistema se parece menos com um único evento dramático e mais com uma sequência de etapas conectadas.
Com uma linha do tempo mais sólida para testar, a questão deixa de ser se o Rio Colorado alcançou e preencheu o lago, e passa a ser como suas águas cruzaram o divisor - em uma inundação catastrófica ou por um processo mais lento, desenrolado ao longo de milhões de anos.
Seja qual for a resposta, esses acontecimentos ajudaram a moldar o rio que ainda hoje abastece o sudoeste dos Estados Unidos.
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