Escavações no forte romano de Magna, nas proximidades da Muralha de Adriano, em Northumberland, no nordeste da Inglaterra, trouxeram à luz alguns calçados de couro de tamanho incomum. Em parte da cobertura jornalística, a descoberta foi descrita como algo que teria “deixado arqueólogos perplexos”.
O achado no forte romano de Magna, junto à Muralha de Adriano
A preservação desses sapatos, por si só, não é um milagre nem algo fora do padrão para a região. Em solos encharcados e pobres em oxigênio, como os desse trecho do norte inglês, o couro - e outros materiais orgânicos - tende a resistir muito bem ao tempo.
Há décadas, as escavações conduzidas pelo Vindolanda Trust em Vindolanda, logo ao sul da Muralha de Adriano, e agora também em Magna, vêm recuperando uma quantidade impressionante de calçados romanos. Esse conjunto de achados se tornou um registro excepcional do que era usado tanto por soldados quanto por civis que viviam nas imediações dessas guarnições.
O que torna os sapatos romanos de Magna tão diferentes
O que faz a coleção de Magna chamar tanta atenção é que muitos exemplares são grandes. Em Vindolanda, também apareceram sapatos grandes; ainda assim, entre aqueles cujo tamanho pode ser estimado, apenas 0.4% entram nessa categoria.
Em Vindolanda, o comprimento médio dos sapatos fica entre 9.5 to 10.2 inches (cerca de 24,1 a 25,9 cm), o que corresponde aproximadamente a um tamanho moderno do Reino Unido entre 7 to 8.
Em Magna, porém, os sapatos grandes representam uma parcela bem mais expressiva do total. O maior deles mede impressionantes 12.8 inches (aproximadamente 32,5 cm), algo em torno de um tamanho atual do Reino Unido entre 12 to 14.
Diante desse conjunto, a pergunta surge de imediato e parece inevitável: por que as pessoas em Magna usavam sapatos tão grandes?
Hipóteses para os “sapatos gigantes” e o debate arqueológico
As possíveis respostas não encerram o assunto - elas abrem novas dúvidas e ressaltam um componente central da pesquisa arqueológica: o bom debate.
Emma Frame, arqueóloga sênior das escavações de Magna, propõe: “We have to assume it's something to do with the people living here, having bigger feet, being potentially taller but we don't know.”
A ideia de pés maiores e, portanto, pessoas maiores é bastante plausível - embora implique que parte da comunidade militar em Magna poderia ser realmente muito alta. E há um problema prático: como os cemitérios romanos ao longo da Muralha de Adriano foram pouco escavados e pouco estudados, ainda sabemos pouco sobre a estatura das pessoas nessa área do mundo romano.
Ainda assim, vale considerar outras possibilidades. Por exemplo: será que esses calçados seriam algum tipo de “raquete de neve” ou bota de inverno, feita para acomodar camadas extras de proteção, como mais enchimento interno ou até várias meias ao mesmo tempo?
Uma carta preservada em Vindolanda - graças a condições de conservação semelhantes às que salvaram os sapatos - menciona o envio de um presente de meias e roupas íntimas para alguém estacionado ali, ao que tudo indica para ajudar a enfrentar as noites frias do inverno. Também há indícios, por outras fontes, de que arqueiros sírios integravam uma das unidades posicionadas em Magna. Para esses homens, o clima gelado do norte da Inglaterra não seria algo habitual.
Seriam, então, esses sapatos grandes uma tentativa de lidar com o choque do inverno britânico? Ou haveria uma finalidade médica - por exemplo, permitir que pessoas com os pés inchados, ou usando curativos e bandagens, conseguissem calçar sapatos?
É importante frisar: não estou dizendo que tenho as respostas. O que faço é apresentar hipóteses que poderiam explicar esses calçados extra grandes, a partir de outras evidências disponíveis e de explicações logicamente possíveis para um calçado desse tamanho.
Esses exercícios de hipótese estão no centro do método arqueológico. Novas descobertas aparecem todos os dias, e frequentemente viram manchete com expressões do tipo “arqueólogos perplexos”.
Esse tipo de linguagem pode até despertar curiosidade no público, mas também corre o risco de transmitir uma imagem distorcida da área. Na prática, o trabalho que arqueólogos como eu - e milhares de colegas ao redor do mundo - realizam se apoia em análise cuidadosa e baseada em evidências.
A dificuldade não é falta de conhecimento técnico, e sim a natureza do próprio material disponível. Grande parte do passado distante se perdeu, e aquilo que conseguimos recuperar costuma ser apenas um fragmento pequeno do que um dia existiu.
Em vez de “perplexidade”, o que existe é o teste rigoroso de múltiplas hipóteses, até chegar às interpretações mais plausíveis. Interpretar esses fragmentos é um processo complexo - como montar um quebra-cabeça de mil peças quando muitas das partes mais importantes (como as bordas) simplesmente não estão lá.
Às vezes, encontramos as peças certas para enxergar o quadro geral; em outras, persistem lacunas, e precisamos propor diferentes explicações até que novas evidências venham à tona.
Tim Penn, Professor de Cultura Material Romana e da Antiguidade Tardia, University of Reading
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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