As ligações aéreas entre a Europa e a China voltam a crescer neste verão, com mais de 4 000 rotações programadas para agosto. O movimento chama a atenção, já que as tensões e conflitos em curso entre as duas regiões seguem afetando fortemente o tráfego aéreo.
Trata-se de uma virada que poucos antecipavam. Segundo dados da empresa britânica de inteligência do setor aéreo OAG, o total de voos diretos entre a Europa e a China deve saltar de 3 011 rotações em maio para 4 151 em agosto de 2026, no auge da alta temporada. No ano passado, no mesmo intervalo, a oferta havia avançado apenas até 3 393 voos em agosto.
Quem mais impulsiona esse avanço são as companhias chinesas, que colocaram em operação quase 2 900 voos adicionais ao longo do verão em comparação com 2025. Ainda assim, as principais empresas europeias também acompanham o ritmo: Air France-KLM, British Airways, Lufthansa, Finnair e Turkish Airlines estão aumentando frequências ou capacidade nas rotas para Pequim, Xangai e outras grandes cidades da China.
A demanda está em alta
Há diferentes motivos por trás desse aquecimento, começando por uma procura maior. Desde 2023, a China ampliou gradualmente sua política de entrada sem visto para diversos países europeus, reativando tanto o turismo de lazer quanto as viagens corporativas nos dois sentidos. Europeus voltam a priorizar as grandes metrópoles chinesas, e o turismo chinês em direção à Europa também retoma fôlego.
Outro elemento, mais inesperado, vem do Oriente Médio. A guerra no Irã tornou vários corredores aéreos entre a Europa e o Sudeste Asiático mais arriscados e mais caros de operar. Com isso, a China passa a funcionar como um destino alternativo atraente para companhias que buscam realocar aeronaves em rotas com melhor retorno.
Por fim, o peso da concorrência entra decisivamente na conta. As companhias chinesas seguem sobrevoando a Rússia, o que lhes permite operar voos mais curtos, mais rápidos e mais baratos até a Europa. Essa vantagem estrutural é grande e força as empresas europeias a reagirem para não perder espaço nesse mercado.
As companhias sofrem com a geopolítica, mas não rompem
Manter-se na disputa, porém, tem custo elevado. Desde 2022, as companhias europeias estão proibidas de sobrevoar a Rússia por conta das sanções ligadas à guerra na Ucrânia. Cada voo rumo à China agora exige um longo desvio, que estende o trajeto em duas a três horas e adiciona um custo extra de pelo menos 10 000 dólares por hora, conforme estimativas da OAG. A isso se soma a alta do preço do querosene de aviação, alimentada pelas tensões no Oriente Médio, pressionando ainda mais rotações que já são caras.
Ao que tudo indica, as empresas europeias aceitam margens menores para não ceder terreno. A Air France, por exemplo, planeja elevar sua rota Xangai–Paris para dez voos semanais em setembro e outubro, contra sete atualmente. Em conjunto com a KLM, a aliança deve chegar a 29 voos de passageiros por semana saindo de Pequim e Xangai rumo a Paris e Amsterdã.
Nossa análise
As companhias europeias têm clareza de que a China é um mercado que não dá para deixar escapar. Cada operação ajuda a preservar um slot de pouso em Pequim ou Xangai, a manter relações comerciais construídas ao longo de décadas e a seguir visível em uma das rotas de longa distância mais estratégicas do mundo. Nesse cenário, elas absorvem os custos extras, os desvios e a compressão das margens.
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