Não será em Paris, nem em Roma ou Berlim que a Europa vai ter o primeiro contacto com os robotaxis, mas sim em Madrid. A Uber e a WeRide acabam de anunciar o arranque de um serviço comercial de táxis autónomos na capital espanhola. Ao mesmo tempo, a Uber vem a desenvolver, de forma discreta, uma infraestrutura de dados capaz de acelerar a revolução da mobilidade em escala global.
Embora os robotaxis já sejam muito comuns na China e estejam a ganhar tração de forma séria nos Estados Unidos, o ritmo de implementação no Velho Continente tem sido bem mais lento. Isso, porém, deve mudar. Em 2 de junho, a Uber e a WeRide - que já operam táxis autónomos em Abu Dhabi e Dubai - confirmaram o lançamento de um piloto comercial na região de Madrid, com início previsto para o fim de 2026.
Para a Uber, a escolha da capital espanhola tem uma lógica clara. A empresa afirma que a cidade reúne vários fatores favoráveis: alta densidade urbana, procura elevada por mobilidade e, sobretudo, um quadro regulatório que a Comunidade de Madrid flexibilizou ativamente para atrair iniciativas desse tipo. Já Paris ou Berlim, apesar do apelo, ainda enfrentam contextos legislativos mais complexos.
A iniciativa pode dar um impulso relevante à cadeia de robotaxis na Europa, num momento em que outros projetos avançam com mais cautela. A Waymo, subsidiária da Alphabet, realiza atualmente testes em Londres; enquanto isso, na Croácia, a startup Verne fechou uma parceria com a Pony.ai e lançou um serviço de robotaxis. Ainda assim, essas ações operam numa escala bastante limitada. Madrid, por sua vez, sinaliza um patamar de ambição bem diferente.
Uma implantação gradual com ambição global
As viagens estarão disponíveis diretamente pelo aplicativo da Uber. No começo, um operador treinado ficará a bordo do veículo, seguindo o modelo de expansão gradual da WeRide antes de migrar para um serviço 100% sem motorista. A frota será operada pela AVOMO, subsidiária do grupo Moove Cars, que já gere cerca de 400 veículos autónomos em Austin e Atlanta para a Uber.
A WeRide e a Uber planejam colocar robotaxis em 15 cidades até 2030. É uma meta agressiva, mas a WeRide traz experiência: a empresa chinesa já atua em mais de 40 cidades, em 12 países, e obteve autorizações para condução autónoma em oito mercados diferentes.
A Uber também está a construir a sua própria infraestrutura de dados
A estratégia da Uber, contudo, não se resume a disponibilizar o seu aplicativo para os robotaxis de parceiros. Para acelerar o avanço da condução autónoma no mundo, o grupo revelou nesta semana uma iniciativa paralela: a criação de uma enorme base de dados de condução real, descrita como a mais diversificada geograficamente do mundo. A ideia é fornecer uma visão sincronizada em 360 graus, utilizável no treino de softwares de condução autónoma.
Como demonstração, a empresa apresentou um protótipo de Hyundai Ioniq 5 equipado com uma grande quantidade de sensores, e diz que 500 unidades serão colocadas em operação globalmente ainda este ano. O objetivo é recolher cerca de 3,2 milhões de quilómetros de dados de alta fidelidade por mês. Depois, esses dados servirão de base para os sistemas de treino de 30 parceiros de condução autónoma do grupo, incluindo a WeRide e a Waymo.
A nossa análise
A Uber já não se limita ao papel de plataforma de intermediação. O grupo procura posicionar-se como uma infraestrutura crítica do ecossistema global de robotaxis - justamente o setor que, agora, começa finalmente a criar raízes na Europa. E a empresa não pretende deixar passar as oportunidades abertas por esse novo mercado.
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